18 de set. de 2020

Geleira humana na pandemia

Por Ricardo Novais

Tinha um mendigo sentado na calçada.

Parei em frente à sorveteria. Não era um dia quente, mas ainda havia pandemia de Covid-19 na cidade. De todo modo, era um dia agradável. Tinha sol, o vento era frio à sombra e as pessoas andavam esparramadas pela calçada, muitas já sem máscara de proteção contra o coronavírus. Apesar de muita gente na rua, ninguém tropeçava no mendigo.

Leitor, não te parece que um mendigo enfrentando uma pandemia, na porta de uma sorveteria, estará sempre mergulhado na geleira da cidade? É pergunta retórica; a sério, não te peço resposta.

O mendigo me pediu dinheiro. Entrei na sorveteria, pedi um sorvete de baunilha bem vagabundo e coloquei uma cobertura gordurosa de chocolate em cima. Parecia sebo. Dei duas ou três lambidas... Tive ânsia de vômito. Fiquei a olhar para dentro do lugar. Lembrei-me de Mariana.

Costumava passear com Mariana pelo bairro no final das tardes de sol. Comíamos chocolate. Passatempo com gosto de beijo... E lá íamos à sorveteria. Tomávamos sorvetes, tudo bem devagarzinho, ríamos das folhas das árvores batendo nas janelas e imitávamos os trejeitos do sorveteiro.

__ Quero um sorvete de limão, Alcides! – Mariana pedia com tom de voz alto, quase gritando, por pura chacota.

__ DE LIMÃO NÃO TEM! – respondia exaltado o sorveteiro. – Não enrolem, crianças, estou trabalhando!

Alcides era amigo da família de Mariana, era um sujeito gordinho que vivia com a mão no queixo; ele também gostava de contar histórias usando trocadilhos:

__ Nesses dias veio um pinguim aqui. Ele tomou um sorvete e disse que estava com depressão, é que ele tinha que voar para a Bahia – gargalhava o sorveteiro. – Depois entrou outro pinguim e deu três pulinhos, é que este era o tripulante.

Achávamos graça, Mariana mais do que eu. Ela era alegre, tinha um jeito tão doce... Ah, Mariana!

Querida leitora e prezado leitor, é só isto, já terminou o conto; pode ir descansar os olhos da leitura. Sim, minha amiga, acabou a história. Sei que desejava ler romantismo de quarentena, aventura no enfrentamento da pandemia, uma fábula bonita e sensível do tipo reportagem televisiva; agradeço-te, embora não goste de ver gente metendo o nariz na escrita alheia – aconselho-te a ir para frente de uma página em branco e criar teu próprio mundo (indico usar recurso tradicional, de texto coerente e que tenha um final bem definido). Ao leitor, já não aconselho nada. Confesso que gosto mais da dona leitora; por certo, ela é devota e, ao mesmo tempo, crítica do autor.

Em consideração à teimosia coesa da leitora, digo somente que não me casei com Mariana e faz anos que não a vejo. Alcides continua sendo dono da sorveteria do bairro. O mendigo – lembra-se dele, amigo leitor? – o mendigo da pandemia sentado na calçada desde o início deste conto – pobre diabo! –, em meio ao passeio de pares e pares de pernas cruzando-lhe o leito de seu castelo de gelo, ele havia me olhado bem nos olhos e me pedido dinheiro. Não dei dinheiro, mas o sorvete seboso era para ele. Entreguei o sorvete a ele e reparei que sorriu ao colocá-lo na boca; pareceu não sentir a dor aflitiva de tomar algo muito frio como um gelo seboso, mas é verdade também que observei que ele não tinha dentes.

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