22 de set. de 2020

Exceto o silêncio nada se move

Por Milton Rezende

 

Convidados

Da janela da casa onde moro

aguardo a chegada de alguns

amigos para a festa de

aniversário.

 

Nada se move, exceto a minha

sombra na varanda, vazada de

angústia, silêncio e noite.

 

Fecho as janelas da casa

onde moro e ainda dou

uma última olhada através

das frestas da veneziana.

 

Nada se move, exceto a noite

com a sua noção de simultaneidade

do tempo, das pessoas e das coisas.

 

Nada se move, exceto o silêncio

que domina o ambiente e repousa

na visão do telefone emudecido

e inútil sobre o criado-mudo.

 

Fecho a porta do meu quarto

e a casa onde moro fica escura,

imersa na solidão dos cômodos. 

Exílio sem reino

Caminho pelas ruas de

uma cidade, mas é como

se eu andasse descalço

sobre um depósito de

vidros quebrados.

 

Pulsava em meu sangue

coágulos de nostalgia

e o desejo ardente do

corpo esbarrava num corpo

que, exaurido, envelhecia.

 

A calçada é deserta

na extensão da noite,

e no escuro a minha

solidão era a mesma

e se misturava com

a solidão das pedras.

 

Visito em meu roteiro

sem rumo uma antiga

chácara da morte, e

era como se eu entrasse

num canteiro de obras

ao som de um sino.

 

Havia, ao lado deste

cenário em que se

morria, um boi que

pastava, ruminando

a nossa sina.

 

Sob pseudônimo

Estou confinado ao

espaço do eu mínimo.

Estou de volta ao

estágio do ser sozinho,

e se estou assim não

o estou só por escolha

própria, aliás o poeta

Ferreira Jr, já me disse:

"Excluindo o homem, o mundo

talvez fosse belo sem nós".

 

Estou de novo no limite

estreito que nos é devido

e ao qual me devolveram

como uma dupla mercadoria

estragada, com um carimbo

onde se lê: "Se quiseres

sair do teu eu insulado e

se neste gesto tu queimares

alguma etapa, serás punido

e segregado do nosso grande

sonho coletivo".

  

Do livro Inventário de sombras (Editora Multifoco). Exemplares esgotados.

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