16 de set. de 2020

Eu me contento com a sombra que os seus raios produzem

Por Adrianna Alberti

 O sol brilha para todos

Quantas palavras você recebeu, rabiscadas em papel de pão ou em cartas perfumadas, atestando que você é a esperança que irradia em dias ruins? Eu não queria soar como mais uma adolescente piegas que suspira seu nome em vão. Você não ouviria de qualquer forma. Sentada nesse balanço, sua voz em meu despertador. Para frente e para trás, os pés no ar. Ouço sua gargalhada tão longe, tão vivaz, seu sorriso não é para mim. Emudeço. Para cima e para baixo. Eu me contento com a sombra que os seus raios produzem.

  

Sínteses

A mão subiu, imitando-o e acenando, a boca arreganhando em um sorriso lateral, mostrando dentes e gengiva. O olhar buscando captar a ira. Estava errada, não refletia aquilo. Os dedos dedilhavam a tela, em uma vã tentativa de replicar o gesto do outro nas teclas do piano. Não era esse o tom. Letras! Mostraria orgulho, finalmente, resgatando o antigo dom. A sua era a escrita, devastadora, gananciosa. Como se o espelho de sua alma estivesse em um papel em branco com palavras rabiscadas. Tinha os dedos sujos de grafite e borracha. Vazia e cheia novamente.

  

Tão distante

Aqui dias ruins têm a cor do sol brilhante, céu azul e pássaros cantando, os caminhos são repletos de árvores floridas e um calor sufocante. Eu oscilo, indecisa, entre planos grandiosos e os pés enfiados em terra quente. Mas suas palavras me alcançaram em um dia assim, radiante. E tão distante, parecia um sonho. Eu ousei ouvir sua voz e arrisquei deixar que me tocasse. E como se você fosse uma chave abrindo portas cuidadosamente bloqueadas, eu verti desesperadamente aquilo tudo que guardava. Eu não sou mais a única então, meus dias brilhantes agora têm um sorriso oculto no sol.  

Arisca

Você já viu onça andando no mato? Encolhida nas próprias patas, camuflada no mato alto, seco, evitando estalar. Arisca, à caça, os dentes à mostra, apenas aguardando o momento certo. Um instante suspenso, sem ar, a expectativa da presa. Eu testemunho, com receio, incerta sobre essa miragem. Nas orelhas adornavam flores de ipê branco e amarelo, os olhos atentos sem perder uma piada. Os cachos flutuando, como comandados pelo som da zabumba. Os pés ligeiros, os abraços mais apertados. Eu atesto, sem muita certeza. O rumor da garganta, um ameaçador tom de comando, espreita, aos pés da aroeira. 

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