23 de set. de 2020

A fantástica viagem no hidroavião do senhor Alberto Bresciani

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

O porteiro do prédio me entrega envelopes de conteúdo previsível: livros e mais livros. Retiro a insuportável máscara que devido à tal pandemia somos obrigados a usar, e entro no apartamento, ao tempo em que abro aleatoriamente um certo envelope. Vejo um volume de capa azul. Um azul da cor de céu entardecendo, sem por do sol. Na parte inferior da capa, a silhueta de um hidroavião. Observo que o autor me diz na dedicatória: “Convido-o a embarcar neste meu hidroavião”.  E é então que começo uma viagem absolutamente maravilhosa.

O livro Hidroavião, escrito e publicado recentemente pela editora Patuá, do autor Alberto Bresciani, reúne 83 poemas, divididos em três partes: Água, Terra e Ar. Ainda sem a leitura do elucidativo prefácio da escritora Adriane Garcia, ponho-me a pensar nessas divisões e a fazer analogias com o título da obra e esses elementos. Um hidroavião, água, terra e ar. Tantas e tantas coisas ocorrem, desde a possibilidade de esse tipo de aeronave operar e pousar tanto em terra quanto na água, até outras bem metafóricas sobre o humano e a vida em seu caráter de eterna metamorfose. Como já li outro livro do autor, Fundamentos de ventilação e apneia, inclino-me muito fortemente para a seguinte concepção: Vida = Matéria, energia, espírito. Mas isto está ficando confuso... Vamos facilitar. Relendo a resenha do livro anterior, acho que não me engano. Reproduzo trechos porque esclarecedores:

 

“Sabemos que os animais se movimentam num círculo mecânico de instintos que os restringem a um exato determinismo; não podem e não sabem abusar como fazemos nós. Esse o determinismo que os limita e leva-os à uma luta recíproca onde a ferocidade se impõe, posto que a substância da qual se constitui um organismo representa material de nutrição para outros. Daí a necessidade de instrumentos de ataque e defesa. Nossa humanidade ainda se encontra presa ao baixo mundo da matéria e seu determinismo puro. Estamos como num cinismo de hienas, bailando entre bombinhas atômicas, religiosidade de retardados, racismos, genocídios e uma fodança enlouquecida no hedonismo cruel. Está vigente o inferno sobre a Terra. Andamos aparvalhados e esquecidíssimos de que a lei do espírito humano é liberdade em outro sentido: por evolução, opera-se a passagem do determinismo àquilo que verdadeiramente constitui o livre-arbítrio, e este requer, para se regular, a direção de uma consciência superior, não necessária ao animal, mas indispensável ao homem. É o que nos falta ainda nesse terrível momento de transição que atravessamos.”

 

(...) “Estamos vesgos de saber (mas pouco refletir em profundidade sobre) que a energia solar, assimilada e transformada pelas plantas, torna-se, no animal, calor e movimento e, como derradeira transformação de um dinamismo vital, energia nervosa que, no homem, se configura no mais alto ponto da escala do nosso universo, a máquina mais complexa e delicada. Nossa função psíquica e espiritual. Eis onde culmina, depois de tantas transformações, a energia das radiações solares. Aí o percurso evolutivo que insistimos em não reconhecer.”

 

Creio que já se percebe o que os poemas reunidos no livro Hidroavião me fez pensar.  E parece-me que o autor a cada novo livro depura cada vez mais o seu sentir em uma direção muito próxima do que escrevi acima. E a propósito, o posfácio da obra, escrito pela escritora Cinthia Kriemler, nos lembra que o autor acerta a mão porque exercita “uma escrita cuja tessitura é a honestidade. Vem daí o diálogo fluido com o leitor. Uma conversa em versos na qual emissor e receptor se unem por meio de uma emoção íntegra.”

Recorro mais uma vez ao texto que sobre o autor escrevi:

 

“Estamos todos numa urgência íntima (daí tanto desequilíbrio e apneias em escala planetária) que a vida comece a se libertar das cadeias desse absolutismo da matéria, e nosso psiquismo crescente se constitua em nova causa que se sobreponha à estabelecida pelas leis físicas. Este o pulsante respiro que a evolução está a impor.”

Talvez, e exatamente por isto, a escritora Adriane Garcia tenha alertado lá no iniciozinho do livro: “Neste Hidroavião, Alberto Bresciani nos coloca as questões do incômodo e do cansaço”. Os poetas são mesmo as antenas da raça. Estamos todos angustiados, exaustos, fartos, com a forte sensação de que o mundo como está é in-su-por-tá-vel, e que somos mesmo “sete bilhões de prisioneiros”. Não é por outra razão que a atilada sensibilidade do autor, em seu voo panorâmico, nos leva a percorrer as mesmas trilhas “dos despossuídos, dos refugiados, dos famintos, das crianças abandonadas, armadas, mortas; as guerras. Os tsunamis, os terremotos, as deflagrações suicidas” que atormentam a todos. Precisamos definitivamente levantar voo rumo a novos horizontes (observar especialmente os poemas da parte “Ar”, sobretudo o poema “Por outro lado”). E ressoa-nos na memória um verso do poema “Alvo”: “O tempo é arma / que nos apontamos”. Vistos no conjunto da obra os poemas organizados na sugestão sequencial de Água, Terra e Ar, apontam para isto: mudança urgente e radical.

Poema “Quando não há mais o que amar” (p. 21)

 

Disseram-nos: amem as bailarinas.

São tão leves em asas, membranas.

E logo nos damos conta

de que se acabam em aroma.

Pois que amem os marinheiros.

Mas os marinheiros partem.

E, breve, todos choram portos,

fatias de ausência caindo ao mar.

Disseram-nos para amar

mulheres e homens de lata,

sílex, farinha ou areia,

as onças, serpentes, insetos

que riscam barras simétricas,

cicatrizes, grades na carne e pele.

Amem a prata, ações, o mercado.

E agora estamos nesse deserto,

depois das doze provocações,

esperando, sem esperança,

que alguém recolha o nosso reflexo

no caco de espelho que, parece,

neste mundo, o céu esqueceu.

E cada leitor tire suas conclusões... Afinal, prestes a colocar o ponto em mais uma resenha, sinto-me meio reticente com o tal ponto final. Tanto poderia ser dito ainda sobre esse livro que nos fala da vida e de amor em suas tão variadas nuances... Enfim, olho pela janela e vejo o mar da baía de Todos os Santos envolto em neblina fria que anuncia ainda chuva de inverno. Nesse mesmo olhar juro que consigo ver surgir um pequeno hidroavião voando. Pilota-o o Alberto Bresciani. Sim, ele passa com sua aeronave e segue reforçando em nós a certeza de que não se pode morrer “de nenhum sonho” nesta viagem fantástica que é a vida. É justamente para isto que servem os bons livros, os livros inesquecíveis como este é.


Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador, e crítico literário. Autor de Il Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Gato de Telhado (contos), Um Novo Século (contos), Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema e À flor da pele (contos).  Tem participação em 28 coletâneas e antologias, algumas resultantes de prêmios literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, O Touro do rebanho (romance histórico), obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações.

2 comentários:

Anônimo disse...

Nossa! Que resenha incrível!

Milton Rezende disse...


bemvindo ao Bule, Krishnamurti Góes dos Anjos, com suas resenhas sempre sagazes.