6 de ago. de 2020

Tempo de cão – capítulo 3

Por Marcia Barbieri

Não escutava mais os relinchos durante a madrugada. Não sentia mais o cheiro da bosta apodrecendo no estábulo. As moscas continuavam rondando o corpo do cavalo morto. O cavalo estava morto, mas as rédeas continuavam intactas. Acabou-se o trote o suor escorrendo nas ancas o coração acelerado o bater dos cascos o galope ansioso. Eu era um homem sem sombra    de dúvida. Sem sombra de dúvida eu era um homem. Não era nem as rédeas nem a mosca nem o galope morto moribundo. Não era nem o discurso nem a língua sombreada nem a baba branca do epilético. Eu era um homem   sem sombra de dúvida. Atento o ouvido na parede, já não posso escutar a respiração ofegante de minha mãe, suas tetas já não invadem minha cara. Posso respirar longe do seu corpo, seu corpo não é a minha casa. No entanto, posso ouvir os seus soluços. Até os crocodilos costumam chorar, não é isso o que dizem¿ Lágrimas de crocodilo¿ Sim, minha mãe chorava lágrimas de crocodilo. Não se parte em dois para evitar a solidão, cada um que aprenda a lidar com os seus infortúnios, cada um que mate seus próprios demônios. A figueira se desenvolve bem em locais de clima temperado, mas não suporta geadas. Não me importo com a infelicidade alheia. Ninguém me ofereceu um naco de pão quando estava faminto. Quantos olhos te olham quando você tropeça¿ 

Eu me responsabilizava apenas pelo café que estava no fundo da minha xícara e nada mais. Não nasci para agradar ninguém. Não estava a fim de fazer concessões. Quando estamos presos numa jaula com um leão não nos admiramos pela possibilidade de sermos devorados. Não voltaria. Um filho precisa de uma cartografia maior que a carne de sua mãe. E uma mãe não pode cobrar a vida inteira por alojar o filho em seu útero por alguns meses. Invejo a solidão da ave que nasce distante da cloaca de sua progenitora. Da cria que não sente a saliva pegajosa da mãe passeando pelas dobras do seu corpo nu. A consanguinidade não amarraria os meus pés, tampouco selaria a minha língua dentro da boca. Não existe egoísmo maior do que amor esparramado. O amor exige a castração do objeto amado. As suas tetas ainda pingam leite. Vejo as manchas no seu avental. Precisa eliminar os ramos do passado que já estão secos. Não se pode ter um animal dentro da barriga infinitamente. Ninguém a alertara¿ Uma hora o diabo exige sua cria. Urrava. Urrava de novo. De quais genes ela fez o seu desastre¿ Qual buceta se abriu e a derramou¿ Não nascera da buceta de Deus, isso era certo, não passaria por uma fresta tão estreita e escura. Mais fácil ter sido cuspida pela boca larga de uma chimpanzé. Fixava nos seus olhos e via apenas uma grande carcaça. O seu corpo era uma carroça extensa guiada por bois cegos. Não reconhecia aquela monstruosidade como antiga morada. Eu fora arquitetado no ventre da rocha. Não queria passar meses pensando em cosmologias que não me levariam a nada. Eu não esperaria anos e anos sentado para recolher seus ossos. Se eu fosse um cão talvez esperasse para roer o tutano das suas costelas, eu não era. Eu era o tipo de animal inofensivo, porém orgulhoso. Não tinha o hábito funesto de lamber as mãos dos meus dessemelhantes. Nem cravaria os dentes nas canelas dos meus inimigos. Não latiria para assustar os fantasmas que perambulam pela noite. Não ajudaria. Seu esposo que cuidasse dos seus restos. Não foi para isso que inventaram a instituição matrimonial¿ Para que mais seria¿

Um comentário:

Milton Rezende disse...

texto forte da Márcia.