22 de ago. de 2020

O homem, a chuva, a vidraça

Por Milton Rezende

Árvores

Há na rua uma árvore

cuja beleza consiste

apenas em existir e

estar ali, ao vento.

 

Ela simplesmente existe

e nos transmite a mensagem

que eventualmente quisermos

lhe atribuir à distância.

 

Seu discurso, para si mesma,

é a propagação de sua sombra

na coreografia de suas folhas

e sua linguagem é a do silêncio.

 

Esta árvore não diz nada

de coisa nenhuma. A metafísica

está no bêbado que lhe atribui

significados além do estar-ali.

 

Aquela árvore será sempre

(para aquém e além dela mesma)

exclusivamente árvore e isso

é tudo. O mais é estar a vê-la.

 

Subitamente um carro passa na rua

e arranca as folhas da nossa árvore.

Como não temos galhos para protestar

escancaramos os dentes e voltamos

putos pra casa.

  

Obstáculos

 O homem

chega até

a vidraça

fechada

e observa

a chuva.

 

A chuva

chega até

o homem

fechado

e observa

a vidraça.

 

A vidraça

fica entre

universos

interpostos

e observa

a cena.

 

Do livro Inventário de sombras (Editora Multifoco). Exemplares esgotados.

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