1 de ago. de 2020

O escritor

Por Ricardo Novais

 

Numa certa manhã, João Lebre acordou aborrecido. Olhou para a escrivaninha velha, o computador velho, as letras velhas e respirou fundo. Mal se vestiu e precisou ir à rua, caçar ar puro, gente outra, ideias novas. Dobrou a esquina, viu muita coisa velha na nova gente. Sempre a mesma agitação. Lebre parou alguns instantes, pensou em tornar ao lar, entretanto, dispôs-se a andar, aumentou o passo, atravessou outra calçada, andou, andou, andou e chegou à frente de sua própria casa.

 

__ Que acontece, João?

 

João respirou fundo, novamente. A esposa nada entendia; os filhos, pequenos, menos ainda. 

 

__ Tenho que escrever... – Lebre disse isto e trancou-se no escritório às pressas.

 

Pegou do cigarro, acendeu-o, mas não tragou dele. Não fumava. A fumaça rapidamente tomou conta do ambiente. Deixou pousar as costas à cadeira bege, iniciou uma homilia mental em conjunto com uma observação de memória recente. Abriu uma garrafa de uísque barato...

 

Havia ali uma grande biblioteca na casa, naquele compartimento, herança do pai. Os livros, quietos, olhavam para o escritor, e este retribuía. A coleção de obras-primas de autores clássicos continha Flaubert, Eça, Eco, Rosa, Dostoievski, Tolstói, Kafka, Machado, alguns outros mais recentes, outros ainda mais antigos. Há uns jogados ao pé da estante, livros de diferentes tamanhos, cuidadosamente organizados como títulos de nobreza. Um exemplar da grande literatura ficava exposto em mesa central: Em Busca do Tempo Perdido, do romancista Proust. A esta altura era este autor francês o que mais lhe chamava a atenção e mais repreendia os seus modos de escrita e as suas preferências de criação literária.

 

João Lebre escrevia textos do que a crítica se especializou em chamar de autoajuda, embora também tenha se aventurado pela ficção juvenil. A subsistência ficou a cargo da gorda pensão que a mãe deixara, sempre foi filho único. É verdade que também tenha figurado como professor, por recreação; e, naturalmente, escritor, por vaidade. Editores medíocres o publicaram, revistas on-line listaram suas pequenas obras e as livrarias das redes sociais expuseram seus livros. Poder-se-ia dizer-se bem-sucedido.

 

No entanto, o escritor sentia em suas entranhas a necessidade de volumosa criação literária. Ansiava, com dor estomacal, adentrar ao rol de maiores literatos do mundo, reservar a cadeira escura de onde pudesse tomar chazinho das cinco da tarde. Perceba, senhor leitor, aí é que estava toda aflição e desgosto do autor que sonhava em ser célebre, ser um grande literato, celebrado, renomado nos grandes salões letrados.

 

Tinha ele de retornar àquela sala, sob a escrivaninha e a tela onde deveria preencher as linhas, exatamente para forjar um método de trabalho: a metodologia da criação.

 

__ Preciso que esta parede seja pintada de branco, impecavelmente branca, toda branca, branca, branca... – esbravejou ele em meio da afetação. – Não há de ter uma manchinha sequer; nenhuma! Uma parede alva, clara, brilhante que me traga ideias brilhantes... Isto! Terei sim aspirações brilhantes, divinas... Voilà!

 

Assim foi. Pintou-se toda de branco a parede lateral, que fica de frente para a velha escrivaninha. No primeiro dia, porém, nada. Não que as ideias não viessem; vieram. Lebre chegou as escrever quase vinte páginas de prólogo, mas não foram boas... Quando resolveu descansar um pouco da escrita, resolveu também ler o escrito; fez ele mal nisto.

 

Ao terminar de ler as vinte linhas, o escritor percebeu que os mesmos livros o fitavam, do mesmo lugar. De modo que os autores clássicos foram mais claros do que a parede alva recém pintada:

 

__ Não está bom, João! – foi a sentença.

 

Proust foi ainda mais enfático:

 

__ Está uma porcaria, meu amigo da América! Escreva coisa melhor para não ser confundido com algum selvagem ou qualquer homem que pega da pena....



 

A depressão o engoliu. Fez a mesma rotina de algumas semanas. Saiu à rua, andou, viu gente nova e coisas velhas, tomou ar às ventas, a fumaça preta da cidade grande o fez tossir no âmago.

 

E você, hein, amigo leitor que meramente lê, não valoriza os esforços incríveis do processo criativo de um homem letrado? Oh, não! A dona leitora, que não tem mesmo um gênio fácil, já vem exclamando: “Ah, me poupe! Quanta doidice!”

 

O escritor retomou à escrita e escreveu uma única palavra, em fonte Arial: Nada. Escreveu e não escreveu... Nada! Mudou o tamanho e a fonte das letras, mas foi um fracasso comovente.

 

Então que alcançou a maior bizarrice de sua metodologia da criação. Retirou toda a roupa, ficou nu em pelo na escrivaninha com o ar-condicionado ligado na mais baixa temperatura; por certo, para ter ideias frescas. A esposa entrou de surpresa e o surpreendeu nesta esquisitice e se escandalizou:

 

__ Que isto, João? Que gelo é este, João? Vai ficar doente pelado neste frio.

 

Ao invés de ideias arejadas, ao final de uma semana o escritor estava com pneumonia; e as ideias frescas que, porventura, ele possa ter conseguido, derreteram assim que se abriu a janela e adentrou o primeiro raio de sol.

 

João Lebre, magnífico intelectual desta terra de literatos, morreu naquela mesma noite, às dez horas e cinco xícaras de chá. Proust, ao saber da morte do brilhante escritor brasileiro, pousou a mão esquerda ao queixo, sacudiu, sutilmente, a cabeça três vezes, ergueu à meia altura uma xícara de café e disse, em baixo tom, no meio da biblioteca da escrivaninha: “Aos esnobes e aos amadores”.

2 comentários:

Milton Rezende disse...

das agruras de um "escritor". mas é assim mesmo. leia o belo poema do Drummond, O Lutador: "lutar com palavras/ é a luta mais vã/entanto lutamos/mal rompe a manhã/.
perpassa no conto do Novais uma fina ironia que ameniza, ao mesmo tempo que agrava, a labuta do João Lebre, um escritor desses tipos chamados de bissextos.

Ricardo Novais disse...

Ótima análise sobre a labuta de uma escritor, Milton. Muito obrigado pela leitura e também lhe agradeço a indicação do poema de Drummond. 😉