5 de ago. de 2020

Literatura e pessimismo – Malagueta #34

Por Daniel Lopes Guaccaluz

Procure se lembrar, atravesse todo barulho dos muitos “eus”, da sociedade, de todos os meios de comunicação; Isto está sussurrando. Em geral, não ouvimos porque estamos distraídos ou ocupados com tarefas urgentes e inúteis. Isto é generoso, altruísta, delicado, atento à beleza. Isto é quem somos para além de todas as máscaras. Geralmente, não conseguimos ouvir, perdidos que estamos, até que uma grande dor abra nossa escuta. A Literatura ocidental, desde Shakespeare, é uma Literatura pessimista. Fitzgerald: “É claro que toda vida é um processo de demolição”.Tudo é sempre muito trágico e o homem caminha para seu próprio abismo. Por quê? Porque está desconectado de si. Já não se lembra de quem é. Não encontra dignidade em seu próprio coração e então se volta para o poder e a ascensão social: as disputas de poder das “dark plays” shakespearianas; a busca de ascensão social de Julien Sorel; O grande Gatsby; Judas, o obscuro; Extinção, de Thomas Bernhard. Sempre o abismo como destino. Hemingway chegou mesmo a dizer que não se pode ser feliz e inteligente ao mesmo tempo. Não nego a etapa da dor. É difícil arrancar uma máscara afixada à face com Super Bonder, mas a grande dor é a fissura que abre o Ser à escuta de si. Na filosofia, Nietzsche também percebeu isso e, a partir daí, distanciou-se de Schopenhauer. Zaratustra sempre se volta à sua caverna e aos seus animais. E o que é o além do homem, se não o ser que goza em ser si mesmo, que não espera reconhecimento exterior, mas que se realiza ao desenvolver todas as potências da abertura que encarna? Nietzsche não vai pelo caminho metafísico; busca os céus com os pés na Terra; vislumbra, no entanto, o mesmo ser que os grandes instrutores eram: o iluminado. Se seu chamado é guerreiro, então regozije-se com a guerra; se é a literatura, realize-se com a escrita e não com a fama. Nosso valor não está no reconhecimento da sociedade, mas na realização do chamado mais fundo de nosso coração. A Literatura ocidental é pessimista porque o ser humano esqueceu de si; e a maioria culta identifica-se com este lugar de perdição e errância. Há, no entanto, uma porta para outro lugar no interior. Olvidado no fundo do silêncio, aquilo que somos clama atenção. A Literatura pode ser alegre. Também. 


Daniel Lopes Guaccaluz é escritor, jardineiro e professor. Edita o blogue: www.pianistaboxeador21.blogspot.com. Gosta de arte, planta, bicho e gente. Seus autores preferidos são Jack Kerouac, Louis Ferdinand Céline, Dostoiévski e Guimarães Rosa. Não ignora o lado sombrio do mundo, mas ainda crê na força da amizade, da gentileza e do amor. Pai de Sofia e João Gabriel. Publicou os livros Pianista Boxeador, Fruta, A delicadeza dos hipopótamos, No céu com diamantes e Ménage à trois. Foi um dos organizadores da coletânea de contos Do outro lado da notícia. Eterno aprendiz.

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