15 de ago. de 2020

Duas micronarrativas de Adrianna Alberti

O dono do silêncio

Não estaria sendo justa se dissesse que me conquistou com seu discurso. Embora o tenha feito. Amar a si, a despeito de qualquer falha, medo, insegurança. Estaria ali, apenas para defendê-lo, pois me ensinava como me amar. Porém, perdi o fôlego quando apoiou a mão no queixo, os dedos esticados no rosto, os olhos estreitos. Eu não possuía orgulho quando ergueu a sobrancelha e o rosto, me desafiando a contrariá-lo. Mas no momento que travou o maxilar, deixando o osso proeminente, me moeu, ali, entre os dedos e a mandíbula, com a melhor postura de quem liderava em silêncio.

 

A senhora da palavra

Amar a mim, eu repetia enquanto seus olhos pareciam penetrar em minha alma. Seria ruim se ousasse dizer que não concordava com isso? Mas estava ali, presa entre as covinhas de um sorriso superior de quem sabia o que dizia. Não quis contrariar, ele parecia tão certo de que eu seria capaz de algo assim. Sorvi o suspense daquele momento. Os gritos, as lágrimas, a força. Ele me desafiava, de novo e de novo, dono do silêncio. Suas palavras reverberavam, uma pedra em um lago acostumado com o lodo. Em ondas, suaves. Eu me amo. Não era mágica, era luta.

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