31 de ago. de 2020

A arte de escrever narrativas #4

Módulo 4: Escolha a extensão e a linguagem do seu texto a partir do efeito pretendido

Por Rogers Silva

Quem estiver acompanhando esta web-oficina, perceberá que este módulo é uma extensão do anterior (Tenha consciência do efeito pretendido com seu texto). Aliás, tudo em um texto é entrelaçamento, como sugere a etimologia da palavra (do latim textus – tecido). Um amontoado de palavras dispostas, mesmo que em linhas ininterruptas parecidas com frases, orações, períodos, se não houver coesão, coerência, sentido, inteligibilidade, não pode ser considerado um texto. Eis um exemplo: 

“A música popular brasileira que nada tem de popular é bonita e bastante apreciada pelo povo. Porém, cantores como Zé Ramalho, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto ainda continuam no obscurantismo porque o brasileiro insiste em dar valor ao que vem de fora, ao que não é essencialmente brasileiro, como a MPB.”

Fonte: Autoria própria.

Veja que o bloco de palavras acima é, aparentemente, um texto. Só aparentemente. Se ler com atenção, perceberá que não é. Mas por quê? Porque não há entrelaçamento entre as ideias, embora pareça haver entrelaçamento entre as palavras. Palavras, apesar de possuir sentido próprio, sozinhas raramente formam textos com sentido. Exemplo: Choveu. É uma frase? Sim, pois é um enunciado com sentido completo. É uma oração? Sim, pois é uma frase que possui um verbo. É um texto? Sim, mas aí depende do contexto e do objetivo. Saiba, no entanto, que isso (uma palavra = um texto) é raro. Raríssimo. Em geral, precisamos entrelaçar palavras a fim de formar frases/sentido, orações e períodos para formar parágrafos e, em consequência, um texto.

Já na primeira linha do – vamos chamar de – amontoado de palavras há um problema: como uma música que não é popular (embora seja conhecida como MPB ou música popular brasileira) é bastante apreciada pelo povo? Caso a MPB fosse de fato bastante apreciada pelo povo (termo genérico), como cantores do porte de Zé Ramalho, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia continuam no obscurantismo? Aliás, é verdade que esses artistas/cantores continuam no obscurantismo? Claro que não. Todos possuem carreiras bem consolidadas. Ou seja, além de não haver incoerência interna, há um problema sério de argumentação: textos argumentativos devem se basear em fatos, e essa afirmação (de que aqueles cantores citados continuam no obscurantismo) não condiz com a realidade dos fatos.

Ainda bem que esta web-oficina é sobre a escrita de textos narrativos, né? Opa. Ainda bem nada. O texto narrativo, mesmo o ficcional, exige muitos cuidados. O que chamamos de coerência interna, por exemplo, em um texto argumentativo, em um texto narrativo chamamos de verossimilhança, que nada mais é do que a capacidade de uma narrativa de convencer o leitor a partir dos dados ali fornecidos. Para entender a proposta do módulo quatro (extensão e linguagem baseados no efeito), primeiro é preciso entender: 1) que um amontoado de palavras sem sentido não é um texto; 2) que um texto, independentemente da tipologia textual (informativo, narrativo, argumentativo, etc.), exige uma coerência interna; 3) que um texto narrativo precisa ser verossímil; 4) que a verossimilhança possui, sim, relação com a extensão e o efeito, mas sobretudo com a linguagem (com o usufruto que se faz da linguagem).

Verossimilhança, então, é o que parece verdadeiro mesmo sendo fictício. O que parece real mesmo sendo fantástico. É o que parece factível (tendo em vista a verdade da ficção) mesmo sendo absurdo. É aquilo passível de ocorrer na realidade (sobretudo em caso de narrativas realistas), mas não é apenas isso: é também resultado de um nexo tão forte, uma harmonia entre os fatos narrativos de um conto, novela ou romance, que mesmo os elementos imaginosos parecem reais, tão bem construída é essa obra. Tão bem amarrada é a obra. E quanto maior, aparentemente mais desafios o escritor terá para criar os nexos entre as palavras, as frases, as orações, os parágrafos, os capítulos, os fatos narrativos. Aí entra a questão do gênero.

O que é um conto? Uma narrativa curta. Novela é uma narrativa média. Romance, uma narrativa longa. É preciso saber que nem toda ideia cabe em um romance. Nem todo personagem é interessante ou profundo o bastante para necessitar de um romance (150, 200, 250 páginas) a fim de ser apresentado e explicado para o leitor. Às vezes, um personagem é apenas um artifício, em uma narrativa, para o escritor contar um causo ou passar uma mensagem, de acordo com seu objetivo ou efeito pretendido com aquele texto. Às vezes, o que começa a ser escrito como um conto se estende e se torna uma novela, porque assim o texto (o enredo, os personagens) o exigiu.

O efeito, quando está claro para o autor, facilita bastante a escolha do gênero. É muito difícil, por exemplo, escrever narrativas longas essencialmente de humor, porque é difícil um autor ter recursos suficientes para fazer o leitor se divertir e/ou rir durante muito tempo. O humor é muito dependente do elemento surpresa ou do efeito bombástico. Imagine quantos elementos surpresas um autor precisará em um romance de humor de 300 laudas. Por outro lado, não é nenhum pouco fácil inserir dezenas de personagens em um conto de cinco laudas de maneira que todos façam sentido para a história contada. O conto, em geral, se caracteriza por um número reduzido de personagens e um único conflito. Lembre-se que cada conflito criado precisa, de alguma maneira, ser resolvido, nem que seja com a morte do personagem. Quanto mais personagens e mais conflitos, mais a narrativa precisa explicar os fundamentos e a importância deles e, se possível, apresentar soluções para os conflitos. Quando isso não é feito ou é mal feito, entra-se no campo da (falta de) verossimilhança, uma vez que a narrativa carece de coerência interna. Óbvio que a verossimilhança não possui relação apenas com os elementos da narrativa, mas também com a linguagem utilizada. Vamos imaginar algumas situações:

  1. Uma história contada sob o ponto de vista de um menino de aproximadamente 7 anos, morador do interior de Minas, ocorrida no início da década de 1990.
  2. Uma história contada sob o ponto de vista de um velho de 80 anos, sem nenhum tipo de estudo formal, morador de uma cidade pequena de Pernambuco. A história se passa na década de 1970.
  3. Uma história contada sob o ponto de vista de uma transexual de 28 anos, moradora de São Paulo capital, passada nos tempos atuais.

Escolhamos a primeira pessoa para contar todas as histórias. Sendo assim, todas precisam de uma linguagem adaptada ao seu narrador (menino, velho, transexual). Cada história exige um tipo de linguagem ou, se preferir, um tipo de variação da língua portuguesa. Escolher uma linguagem próxima da culta, muito comum em textos ou situações de formalidade vividas por um homem adulto em pleno século XXI, não faz o menor sentido para contar nenhuma das histórias, seja ela ocorrida com o menino, o velho ou a transexual. Entende como a linguagem é tão importante também para a construção da verossimilhança? Aqui podemos enfim unir os vários conceitos discutidos: coerência interna, verossimilhança, gênero, tamanho, efeito pretendido, linguagem.

Peguemos, como exemplo, a situação 1 (uma história contada sob o ponto de vista de um menino de aproximadamente 7 anos). Um personagem desse tipo possui condições, memorialísticas e intelectuais, de contar uma história longa, consciente ou inconscientemente obedecendo a todas as sequências tradicionais de uma narrativa, a saber, apresentação, conflito, desenvolvimento, clímax e desfecho? Faz sentido, então, uma história dessa ser contada sob a forma de um romance tradicional? Ou é preferível um conto? Aqui estamos levantando questões de gênero e tamanho.

Quanto ao efeito pretendido, o autor – se optar por, essencialmente, emocionar o leitor – deve evitar alguns tipos de termos e recursos próprios do humor, por exemplo. Um personagem caricato não é uma boa opção para uma narrativa cujo objetivo é emocionar. Mesmo o personagem tipo (representante dos comportamentos e características, físicas e/ou psicológicas, de um grupo social ou classe) não funcionaria tão bem em uma narrativa que objetiva emocionar. Aqui, o personagem mais cabível é o personagem indivíduo ou esférico (ou seja, complexo).

Todas essas questões, direta ou indiretamente, influenciam a famigerada verossimilhança. E esta, por sua vez, define a qualidade de uma obra literária. Agora entende que texto é um tecido, e todo tecido depende do entrelaçamento entre as partes? O efeito, a extensão, o gênero, a linguagem – tudo em um texto narrativo deve dialogar, explícita ou implicitamente.


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