21 de jul. de 2020

Tempo de cão (capítulo 2)

Por Marcia Barbieri

Livro Um – Um homem sem sombra

 [Sentei no alto da montanha, peguei o binóculos do meu falecido avô e observei a trágica comédia da vida] 

Cutuquei. Estava viva.

Cutuquei. Estava morta.

Um zum zum zum de moscas.

Uma falação de fantasmas.

Cheguei antes de amanhecer em Sombrio. Eu vim a pedido do meu pai e pela boca insossa de minha mãe. Minha mãe pouco falava, no entanto, seu corpo se estendia em um falatório sem fim. Da sua língua comprida em riste se fez a ausência do meu verbo. Da sua vértebra curvada se fez meu andar altivo. Eu era um figo amadurecido que já não se sustentava no pé. Ela cutucava o próprio umbigo e depois levava o dedo à boca. Observava a sua saliva absorto. Ela me devolvia o olhar com a baba branca já escorrendo pelo peito. Era um gesto desesperado, eu sei. Talvez procurasse a origem da desgraça. Sem se dar conta que a maternidade era a raiz da sua desventura. De repente percebia que o útero era uma construção anatômica que se assemelhava a um patíbulo. Talvez fosse uma questão de tempo até ver os condenados pendurados pela traqueia. Qual de nós tomaria partido e impediria o enforcamento¿ Qual monstro poderia duvidar da crueldade de sua própria cria¿ O monstro nutre uma falsa esperança de sacralidade. No entanto, não podemos fechar os olhos diante do assombro. A maldade pode ser adivinhada no gesto primeiro, no choro inaugural ou numa inocente mordida nos seios. O canibalismo começa com o filete de sangue misturado ao leite materno. Eu não estava mais dentro dela, às vezes, ela se esquecia e me empurrava em direção a sua barriga com o intuito que eu nunca partisse ou que voltasse em breve. Prepotência. Não estava preparada para o abandono. Desde criança ouvira que os filhos traziam alento e sossegavam apenas debaixo das asas da mãe. Não sabia que alguns filhos eram capazes de amputar os voos de sua genitora. Aquela velha história mentirosa do filho pródigo. Sentava de costas para a janela, uma evidente negação da extensão fora do seu corpo, colocava as mãos sobre meus olhos, numa espécie de venda artificial, não me explicara nada sobre a diáspora, aprendi num livro de geografia. O mundo é só uma placenta mais espessa e elástica, a qual não temos que atravessar, meu filho, não vale a pena se cansar, veja, suas pernas são tão fininhas! Venha, sente no meu colo. Daqui a pouco começa o temporal, escuta escuta os trovões se aproximam. Miocárdio, também aprendera essa palavra e não conseguia parar de soletrar mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio. Ventrículo direito ventrículo esquerdo veia cava aorta. Por acaso todos os mamíferos amam da mesma forma¿ Porque eu amava de uma forma frouxa, como se tivesse sido chocado e não parido. As paisagens de dentro eram foscas, enxergava cor quando caminhava fora do quadrilátero que me fora destinado. Mãe não conseguia compreender minha deformidade congênita, não aceitava que a minha mente era dada a espetáculos puramente abstratos. Embora tenha sido, como muitos, gerado dentro da casca, tornei-me um ser avulso. Você já viu um rato perdendo a vida ao tentar devorar o queijo da armadilha¿ Ela parecia um rato prestes a perder. Porém, o seu declínio não me provocava pena, um incômodo talvez. A tragédia visitava pouco a pouco todos os seres, era preciso se habituar. Um cômodo, dois cômodos, três cômodos, a casa não pararia o seu crescimento, quando mais eu me movimentava, maior ela se tornava. Meu lar não podia mais ser mapeado. 


4 comentários:

Milton Rezende disse...

prosa densa, enxuta

Tita disse...

Enxuta?

Milton Rezende disse...

Tita, enxuta no sentido de ser uma prosa seca, sem derramamentos; numa palavra: e x a t a.

Unknown disse...

Márcia é a escrita como parto de si mesmo, esta coisa que vem arranhando, abrindo espaço nas entranhas, tornando visível todo o como do processo de criação/inquietação.