9 de jul. de 2020

O dia em que vi minha mãe chorando na cozinha

Por Daniel Lopes Guaccaluz


Fui o único a correr para abraçar meu pai quando ele parou o Fusca em frente de casa. A mãe continuou na cozinha, coando o café; enquanto nenhuma de minhas quatro irmãs mais velhas saiu do quarto para cumprimentá-lo ou pedir a benção. Eu, no entanto, tinha sete anos; de modo que, não importava o que falassem, meu pai era meu herói. “E aí, molecão!” – disse ao me entregar um boné original do Santos FC. Ajudei-o com uma das sacolas, enquanto ele carregava as malas para dentro. Meu pai era o homem mais alegre que já conheci. Quase aos cinquenta, ainda tinha a mesma energia que eu. Como nosso quintal era grande, passávamos os dias jogando bola, peteca; ou pegando amora, atemóia, manga, ameixa no pé. Agora, havia quase um ano que eu não o via. Tempos antes, o pai tinha conhecido uma mulher no trabalho e se apaixonado, e saído de casa. Foi um ano ruim, aquele. Eu não sabia o que tinha feito de errado para ele me abandonar assim. Além disso, as dificuldades financeiras. Não chegamos a passar fome, minha irmã mais velha já trabalhava e a mãe pegava roupas para passar em casa. Houve, todavia, noites em que jantamos os abacates colhidos do pé; com pouco açúcar, inclusive. Só que agora ele estava de volta, meu Pai, e eu estava disposto a esquecer tudo aquilo; como se não tivesse passado de um sonho ruim. O resto da família, no entanto. “Oi, Maria.” – ele disse, beijando mamãe no rosto. Ela permaneceu. Era uma mulher séria; sempre com os cabelos presos num coque e vestimentas muito sóbrias. Seus únicos prazeres eram ler e tocar, no piano, os hinos de nossa Igreja. Entregou uma xícara de café. Ele bebeu devagar. Houve um silêncio denso, como se só os dois existissem no mundo. Depois, meu pai foi para o quarto ajeitar suas coisas. Eu junto, agarrado. No fundo, tinha medo de perdê-lo outra vez. Quando estávamos no quarto, no entanto, o pai me entregou uma caixinha com um relógio lindo dentro. “Por que você não vai levar pra sua mãe?” Obedeci, mas quando voltei para a cozinha, a mãe estava descabelada, chorando, soluçando; agarrada à pia como se pudesse ser levada por um ciclone, caso soltasse. No chão, a xícara quebrada em mais de mil pedaços. Fiquei ali, na cozinha de casa, com aquela caixinha nas mãos por mais de trinta anos.

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Daniel Lopes Guaccaluz é escritor, jardineiro e professor. Edita o blogue https://pianistaboxeador21.blogspot.com/. Gosta de arte, planta, bicho e gente. Seus autores preferidos são Jack Kerouac, Louis Ferdinand Céline, Dostoiévski e Guimarães Rosa. Não ignora o lado sombrio do mundo, mas ainda crê na força da amizade, da gentileza e do amor. Pai de Sofia e João Gabriel. Publicou os livros Pianista Boxeador, Fruta, A delicadeza dos hipopótamos, No céu com diamantes e Ménage à trois. Foi um dos organizadores da coletânea de contos Do outro lado da notícia. Eterno aprendiz.

2 comentários:

Milton Rezende disse...

bom. curto, incisivo e direto.

Cristina Ancona Lopez disse...

Seu conto atinge, em cheio. Transmite todo o sentimento. Amei.