5 de dez. de 2012

Dois poemas de Alberto Bresciani


Do que não guardaríamos (I)
                               "I will show you fear in a handful
                                                           of dust"  (T. S. Eliot)

O momento de dizer,
libertar o mar, o voo
veio e partiu tantas vezes

As palavras gangrenando
antes que tomassem o ar
enterradas contra o vento
mudas nas veias abertas
da terra

Conveio o silêncio?
O risco de ouvir o não
contornado?

Nenhum poema uísque
ópio ou comprimido
abriu um século ou outro

Estávamos resguardados
convalescendo da inanição e cegos
às salas propícias às penumbras
aos indícios

A espera nos salvou da vida

: todas as vezes, voltamos sem ir
Não fomos
nada.

Carma

Quando perdia o sono, pensava
no revoo de pássaros africanos

O tempo foi mais, vieram os saltos
e quedas, erupções, a invasão
e o retrocesso das águas

Os cardumes alados se foram
deixaram vazia a savana
a noite vazia, branca a insônia

Com a vigília herdada
atrapalho-me, perco os pés e as mãos
volto ao amorfo, um corpo inumano

Apenas ideia, salvo-me da ira dos predadores
(perplexos diante da improvável aparência)

Crio raízes, cresço vegetal sem seiva
(a traqueia anaeróbica, um vaso lenhoso)
escondo-me em essência no ventre de planta

(antes, era úmida essa planície
era promessa todo verbo)

Mas vício ainda e no entanto, resta a marca
de nascença: naquela terra de amor e cio
cairei pouco a pouco, amor e cio
embora, até a última folha
desta árvore.


Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Há mais de duas décadas, mora em Brasília. Em 2012, publicou o livro de poemas Incompleto Movimento (José Olympio Editora). Escreve em   Nóstres.  E-mail: albertolbresciani@gmail.com.

4 comentários:

Anônimo disse...

Alberto, excelente expressão - nativa, viva (para aqueles que amam a linguagem). Parabéns!!!!! Abraço

Basilina disse...

Muito bons os dois poemas. Elaboração primorosa, temas profundos, convite a várias releituras. Acho que isso ó que caracteriza um bom poema: nunca se exaure. Parabéns!

Ana Ribeiro disse...

Assim como o movimento do mar, o poema vai e volta para não deixar gangrenar as palavras enterradas nas veias abertas da terra. Um brinde ao poeta!

Tania Andrade disse...

Lindo poema! Como sempre.