6 de dez. de 2012

A puta - X


A culpa deve ter sido da minha mãe com suas feitiçarias. É melhor continuar à beira da cama. Entre os dentes do cão a fresta é branca. As madrugadas mais bonitas são aquelas invadidas pelos tiros de canhão, é mais bonito que fogo de artifício. Ninguém ouviu falar dessa guerra, assim mesmo ela deve estar pintada em algum quadro. Até menino morto é bonito na mão de artista. Muitos homens perderam seus filhos, suas esposas, suas orelhas. A minha orelha continua intacta. Escuto o dia todo abelhas zunindo do meu lado esquerdo. Isso não é agradável. Uma colmeia no crânio. Um enxu. Um candomblé. Formigas picando meu cérebro. Ontem sonhei tava nevando na minha cabeça. Além disso, a acústica do vazio não é muito boa, mas posso afirmar com certeza que eram lâminas. Cegas, talvez por isso depois veio o falatório, os gritos, as fibras sendo covardemente rompidas. Um pano podre. A demora do ato foi tanta, uma interminável luta corporal, que é mesmo possível se tratar de uma faca de serra. Não me assusta a morte, o ritual me assusta. Torcer o pescoço de uma galinha é mais cruel do que atirar no pai. Não tinha imaginado tal loucura, no entanto, agora que citou, sim é possível, explicaria muita coisa. Não conheço a vítima, como posso saber se tem inimigos? Não conheço nenhum homem que não tenha ao menos meia dúzia de inimigos. Você conhece? Não acredito que seja útil analisar o terreno. Essa região não deixa impressões digitais e depois o que adiantaria a digital de um bandido desconhecido, sem eira nem beira. Um natimorto para o mundo.  Aqui está cheio de gente assim, que não existe para o sistema. ¿Quantos zeros à esquerda a matemática pode comportar¿ Agora eu sou a única nos arredores. De forma alguma, isso não me faz suspeita, me faz vítima. Quando cheguei com os olhos tapados e as mãos atadas logo percebi que aqui as flores não murchavam, assim como não nasciam. Um cemitério loteado. Eu esfolava a vida em potencial das sementes. As flores não murchavam, também não nasciam. Eu esfregava os dedos e esfolava a vida em potencial das sementes. A terra era fofa, quase movediça, embora não houvesse rios ou córregos por perto. Os pés gordos afundavam com facilidade. Uma terra de ninguém. Era uma estrada quase asfaltada, os homens não tiveram coragem suficiente para despejar o piche por aquelas bandas. O chão era tão preto nos dias sem lua, que eu realmente acreditava que a civilização comia e cagava ali por perto. O farelo e o cheiro de porcos não saia das minhas narinas e meus dedos se perdiam em seus rabos enrolados. Os curto-circuitos não chegaram. Os postes não chegaram. A vida foi ficando rarefeita. Eu era uma puta na esquina escancarada do mundo. O fundo do lixo. Todos os gatos eram pardos e não miavam, reviravam as latas em busca de restos, mas os restos já tinham sido devorados pelos homens. Algumas vezes fiz companhia a eles. Porque também sei sobreviver do que não serve a mais ninguém. Cansada do sucesso me esbaldava na desgraça. E se eu ainda estava aqui é porque queria ver os miolos de perto. A morte sem a tragédia e sem as representações não provoca o choro.  Os homens gregos invocando mulheres, com suas máscaras fajutas ainda me fazem rir. As notícias são vagas e trazem a fragilidade dos discursos humanos. Estalava o chiclete na boca e enfiava os dois dedos nos buracos dos dentes. Minha-boca-minha cova. Isso me acalmava, às vezes rangia os dentes. Era uma das minhas distrações preferidas. O que acabou me custando muito, minhas mandíbulas estalam e desencaixam no meio dos beijos e dos boquetes. Fiz disso um diferencial, uma idiossincrasia como dizia o filósofo, cobrava mais caro por isso, o que de certa forma era ridículo já que o ouro não valia mais nada. As minhas refeições são verdadeiras sinfonias. Minha saia deixa à mostra duas coxas que já foram grossas e firmes. Hoje são como duas próteses mal feitas. O importante é o oco vermelho - carne viva - molusco morto sem pouso a devorar a gosma branca. Corvo copulando com defunto. O branco reproduzindo a indelicadeza. Em todas as mãos carrego as cicatrizas da brutalidade. É mais fácil respirar do que sobreviver. Virgilio chegou numa noite dessas em que a lua e o desejo são minguantes. Nessas noites em que há mais baratas que estrelas. Percebi que seu dorso trazia um sol vermelho e embora cansado nunca se punha... Não pronunciei nenhuma palavra porque podia ler em sua cara que estava farto dos discursos fáceis. E pra mim era muito mais fácil calar, assim os insetos não podiam copular na minha língua. Ordenou que eu arrancasse a roupa porque queria um amor sem nódulos, sem nervuras. Não queria me tocar e sentir ossos expostos pelo meu corpo. Certamente ele me confundia ou era um tresloucado. Já nasci com a cloaca purulenta. Não pude segurar a gargalhada, que ecoou pelos quatro cantos do cubículo, como uma puta poderia saber fazer amor¿ Logo eu que media os homens pelo tamanho do pau. Como uma mulher qualquer pode saber fazer amor conhecendo as fraquezas e as perversidades do macho¿ Há uma lua podre na face de todo macho e é possível entrever sua escuridão. O amor é só uma ideia tola para distrair a mente limitada e oca do homem, não conheci quem tenha vivido o amor, apenas alguns dementes que confundem amor com sofrimento compartilhado.

Um comentário:

Fernando Rocha disse...

"Porque também sei sobreviver do que não serve a mais ninguém."
Um dia utilizarei esta frase-verso como epígrafe. Chegando ao décimo capítulo, sinto a necessidade de ler tudo desde o princípio para que eu possa sentir o texto melhor.
Neste capítulo o que gostei foi o foco onde aparece Virgílio (é por acaso este nome?), a protagonista sai do transe e se entrega à vida prática, na qual não há lugar para teorias, ao menos para nós seres pós-modernos.