20 de nov. de 2012

Trecho de "Ofélia", conto extraído do livro "Queda da própria altura", editado pela Confraria do Vento, que chega às livrarias no fim de novembro


Por Sérgio Tavares
 
"o pai não aguenta por muito tempo e, meio ruminante, arrasta-se pelos degraus que levam ao estrado, dispondo-se na única posição que o corpo permite. ora em vez, a mãe estica a mão e lhe afaga a cabeça. depois, vai à cozinha e distraidamente retorna com quatro copos de limonada. tal como ela, sinto falta da Ofélia. miúda no degrau da escada para o estrado, pintando seus livrinhos com cera ou cantando cirandas que afastavam os sintomas que trazem as horas mortas.

a Ofélia poderia ajudar. tenho certeza, todos temos. visito um quadro e estamos nos fundos da casa, repetindo o ritual hereditário, porém há um sentimento indefinido, uma ausência que, embora abstraída, vai se acumulando e agrava o cansaço. não podemos nos reconstruir para suportar o peso que se alastra, se falta essa unidade, um posto danificado. aprendi que, contra a urgência que irrompe no alvorecer, é vital que todos se ocupem do papel cabível na família. a mãe sentada na cadeira fiando, o pai amontoando o desaterro, a Esterzinha como a Ofélia antes e o avô soprando o cachimbo.

somos uma estrutura, a casa que se renova eternamente com tantos cômodos e distinções, mas sustentada pelo alicerce original. precisamos da Ofélia: das suas músicas e do seu comportamento encenado. a cidade muda ao anúncio da partida. os dias vão incorporando horas noturnas e um cinza vai borrando os telhados das casas, provocando um entristecimento gradual que vem do incontrolável abandono das coisas. para provar resistência, é preciso atuar contra o tempo. muitos cantam. por entre as fileiras de sebes, ouvem-se coros que entoam melopeias marcadas pela marcha das pás. hnos patriarcais, às vezes o compasso de um instrumento de corda. alguns urram e, quando encontram uma mandrágora ou uma raiz tuberculosa, comemoram com assovios e euforia infantil.

não posso negar a influência que a Ofélia e suas músicas teriam no preparo da partida. o incompleto nos rodeia de inquietações e põe em dúvida tradições e posições modulares. trago na memória a sensação de absoluta segurança que reinava sobre as horas mortas com o pai comandando o empenho coletivo de abrir os buracos. agora, desfalcados, permitimos um esgotamento que não está no cansaço e sim em sua previsão. sinto a instabilidade pela casa, como portas e janelas que já não trancam, e a obrigação de provar ao pai e à mãe (a mim!) que, embora passemos por um processo de transição, tenho capacidade para permitir o retorno e a continuação da nossa ordem.

à noite, o pai rasteja até o quintal e vem lastrando a barriga na terra úmida para derramar, da borda do buraco, o cobre da lamparina sobre o trabalho embotado. fica até o querosene acabar ou a aurora o tornar imprestável, removendo o breu do meu corpo enquanto cavo o solo e jogo seu conteúdo sobre minha cabeça. não sei, ao certo, se é um gesto de confiança ou para afastar o fantasma da incerteza.

quando comecei a cavar, não me atentei ao efeito que a decisão da Ofélia, mesmo ainda recente, já infundia, em pequenos gestos e atitudes menores, no preparo da partida. a reboque do entusiasmo que impele as famílias, fundi o braço ao cabo da enxada e abri a terra, ainda úmida de sereno, cego e afoito, desatinado pelo esgotamento do tempo e a degradação do corpo. cavei descomedidamente, sem plano ou pausa, condicionando meus braços a um automatismo febril, por horas insones.

sob o mormaço viscoso do sol acinzentado ou o orvalho sujo da noite, reproduzia movimentos angulares, adotando uma simetria entre os golpes para talhar um círculo que calculei ser suficiente para abrigar a todos e os pertences mais íntimos. lascava a abertura com o gume, depois usava as costas do metal para socar a argamassa de terra e umidade num grosseiro acabamento. quando já me encontrava afundado na altura dos ombros, senti os primeiros sintomas do cansaço.

não era um embrulhamento dolorido e compresso, oriundo de um trabalho árduo, mas algo impróprio, uma sensação de peso que ia pendendo os braços e deixando no corpo uma falta de vontade. lembro que a descoberta me estancou e a parada inesperada descolou o cabo das minhas mãos, tombando lentamente como uma parte seca que se desprendia de mim. percebi que sangrava há algum tempo. furiosamente, atacaram-me as necessidades fisiológicas, a ingestão e o desapego a minha saúde. minha visão foi ficando turva, perdia a firmeza das pernas, respirando o ar insalubre, acre de queimar os pulmões, claustrofóbico, tinha de sair dali. cambaleei até a escadinha de madeira e, quando emergi para as costas da casa, vi a mãe, fiando uma figura concêntrica, e os demais que contavam com a minha resistência."

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É jornalista e escritor, autor de "Queda da Própria Altura" (Confraria do Vento/2012) e "Cavala" (Record/2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura - Categoria Contos. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp-RJ/2005) e tem textos publicados, entre outros, nas revistas Cult e Arte e Letra: Estórias # M, e no jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.

2 comentários:

Sérgio Tavares disse...

Excelente! Obrigado, amigos!

Fernando Rocha disse...

Talvez o maior êxito do texto seja mostrar que a angústia existencial não é um privilégio de intelectuais, guardadas as devidas proporções, retirar dos ambientes e retratos mais simples a inadequação é o mesmo que fez Graciliano Ramos em boa parte de sua obra.