5 de nov. de 2012

Antes do pó


Por Fernando Rocha da Silva

Aquele olhar, talvez, nunca mais o esqueça. Ausente parecia focado em mim, a sua indiferença me perturba até hoje. Os meus olhos vazios foram preenchidos quando o vi, o corpo que o carregava, cansado parou ou foi parado por alguém, o pôr-do-sol pareceu ter se prolongado mais naquele dia, pareceu sentir ternura e por isso não quis abandoná-lo.

Uma das mais belas imagens que vi nesta vida: o mar quase escondendo o sol refletido naqueles olhos. Uma luz me aquecia com uma fria sensação de calor.

Eu com medo de ter refletido em meus olhos a brancura de um quarto hospitalar, caminhei por entre o mar, veloz como na concepção, mas ali era o contrário, não havia concorrência, era eu sozinho, diminuí o ritmo das b-r-a-ç-a-d-a-s realizando a eterna meia volta.

A boca selada pela areia, como uma mordaça revelava o homem antes do pó.

Por covardia, ou sei lá o quê, retornei para a minha eterna ausência de mim mesmo. Já aquele corpo sem um espírito que o habitasse parecia repleto, como nunca fui.

Fernando Rocha da Silva, Graduado em Letras, Professor, possui um livro de narrativas curtas inédito, textos publicados em: O Relevo, Musa Rara, Cronópios e Literatura em Foco.

3 comentários:

Marcia Barbieri disse...

Um dos contos mais bem realizados que já li. Fernando os seus personagens vivem me surpreendendo porque eles têm a solidão dos humanos.

um beijo

pianistaboxeador21 disse...

A paisagem mais vive nos olhos de um defunto. E os vivos ainda nos arrastamos. Tecnicamente perfeito! E que imagens, meu velho!

Otacília Andrea disse...

Olha, muito sensível... É bonito mesmo, bonito mesmo. Mas é bonito porque a gente para, pensa e introjeta as palavras, pensa nelas, aí sente o texto. Eu logo me perguntei,no início da leitura, se você uma hora não se aventuraria por um lirismo que tocasse a narrativa do cotidiano, a poesia dos dias, do café-com-pão, entende? Oh, estou pensando agora na "Água Viva" da Lispector: é o soturno, o incrível, o solto, o lírico que aparece no quarto, na sala... O dia-a-dia tem esses recônditos inimagináveis, eu acho. Parabéns pela expressão, Fernando.