6 de out. de 2012

A puta - VIII


Um dia mãe tirou um grande atlas debaixo do colchão, tinha sido presente do Corisco, cabra macho, matava inimigo na unha. O atlas estava todo marcado com carvão, cada ponto era um lugar que tinha visitado no pensamento, vaguear assim custa barato, ela costumava dizer. Mãe tentou me ensinar sobre escalas, trópicos e linhas imaginárias. Ela conhecia o segredo dos meridianos e das paralelas, o marco zero e todas essas invenções cartográficas que não me ajudaram em nada, a não ser me perder cada dia mais, eu achava que dentro da nossa cabeça também deveria haver alguma espécie de linha imaginária, assim evitaria tantos devaneios. Grewitch, quem se lembraria disso¿ Nunca aprendi, tristeza nasce do avesso do globo, sempre achei o mundo confuso demais para caber nos mapas. Nunca entendi a rosa dos ventos. Pra mim, quando ando pra trás é sul, pra frente é norte. E o sol, bem, não é todos os dias que o sol se põe no oeste. Ela tinha pregado na parede revista de lugares distantes. Ela ia ao mercado, quando voltava retirava os papéis das mercadorias. Ela sabia que no meio daquilo tudo havia uma paisagem bonita. Desamassava com carinho e pendurava as maravilhas que jamais conheceria. Amor era coisa frágil, era moleira de bebê. Muito amor se desgasta no ranger feio das portas. Um abre-fecha brusco sem sossego e um dia a coisa emperra, ninguém mais abre, nem um vãozinho anêmico, nem isso. A coisa vai enferrujando e ferrugem velha ninguém tira meu filho. A boca criou ranço. Criou musgo. Verde-verde-escuro. Língua geográfica. Sonho velado, homem caído na porta do puteiro. Bafo de bêbado amanhecido. Mijo misturado com cachaça. Aninha não conheceu carta de amor, tão triste não ter conhecido as cartas de amor, mais triste do que desconhecer o amor, porque nas cartas ele se inventa tão mais bonito, tão mais jeitoso!!! Moça maquiada, é isso, feito moça maquiada à espera. Agora tenho minhas garatujas, estão todas lá, num caderninho amarelo, todas dedicadas pra Aninha, mas Aninha não está mais aqui. Coitada morreu de tédio porque eu não sabia fazer o mundo contado, naquela época o mundo só era pra gente um rabisco, incompreensível. Matei Aninha, como me arrependo! Aninha morreu mergulhada na minha ignorância. Uma tarde ela retirou um baú debaixo da cama. Abriu, olhou para os panos de morangos bordados, eles estavam no fundo, servindo de aconchego aos insetos e deixou as baratas brancas voarem pela janela. Suspirou, tinha a cara cansada, seu rosto parecia uma noite que jamais amanheceria, o olhar no lado inverso da folha. Se foi. Morreu desenganada de amor e nunca pode saber que era amor o que tinha nela, que era amor quando me enfiava nela, quando lambia a porta do seu mundo, quando badalava o sino que trazia perto do ventre, quando deixava minha baba no meio das suas pernas, quando rolava meu pé gelado no seu pé quente de meia e esperava contente o dia amanhecer. Quando trazia abóbora moranga das maiores pra fazer doce, quando trazia tacho de cobre novinho novinho. Quando ela perguntava se a comida tava boa e eu respondia mais ou menos, dá pra forrar o estomago. Quando tomava seu café fraco feito água de batata. Não soube que era amor porque inventaram na novela um amor burguês que eu não sabia encenar. Dó de Ana, dó de mim, só sem Ana. Tropeçando, caindo toda hora, rascunhando e aprendendo coisas do peito que já gangrenaram. Agora um coágulo imenso aqui me envergonhando. Se eu soubesse podar direito as rosas ainda iriam florir. Se eu tivesse me especializado em enxertos, elas teriam cores variadas, eu inventaria primaveras. Não nascem mais. Eu planto e replanto grama perto do seu tumulo, não nasce. Você se encheu de mim Aninha, e eu estou repleto de você. Quando eu olho no espelho eu só enxergo o meu avesso, e ele é feio, aterrorizante depois que você partiu, é um grito estrangulado. Se você tivesse os genes da ruindade, eu diria que foi embora para fazer pirraça. Se fala porque sigo Conselheiro, também é por isso, por causa de desengano antigo. Gostei da cara do sujeito, do jeito manso. Do chinelo de couro escorregando, alisando o chão. A pele da canela comendo poeira. O sol explodindo vermelho no dorso. Dava pra contar nos dedos e de longe as costelas, tinha o corpo esbelto como de Jesus. Admiro homem que come só o necessário, a gula é um desvario que cometo com frequência, não é fácil me esquecer dos morangos polpudos e encarnados, às vezes vomito só de pensar... Aninha também devia ser meio santa, fazia a multiplicação do absurdo, ela sempre foi mais forte que eu, desconfio que não existe uma só mulher que não traga aço nas vértebras, as dos homens viram pó com tanta facilidade! Queria eu ter um seio cheio alimentando o mundo. Conselheiro devia ter nascido de uma mulher porque também era forte. Carregava cruz pesada feito santo. Gastava saliva com pobre, explicando tudo. O gosto do fruto beira o caroço. Antes do tempo amarra-amordaça a boca. 

3 comentários:

Munique Duarte disse...

Pois bem, tudo o que eu possa comentar será insignificante diante da magnitude do seu texto. É exatamente o tipo de leitura que me agrada.
Abraços!

Fernando Rocha disse...

Não sei se estou enganado, mas neste capítulo parece haver uma mudança de foco narrativo, ou uma outra face da personagem.
O jogo com a geografia e o não-lugar dão grande força ao texto.
"Dó de Ana, dó de mim, só sem Ana" e
". O gosto do fruto beira o caroço."
Trechos como estes tornam mais estreitas as fronteiras entre a prosa e a poesia, revelando ao leitor que o que importa é a expressão.

Sonhos melodias disse...

Uau Marcia! Que texto! Li ele num só fôlego. Está muito bom! Parabéns!