27 de set. de 2012

Susto


 Por Geraldo Lima

Surpreendeu-o em meio a um devaneio qualquer. Uma dessas fugas que costumamos empreender sem sair do lugar. O pensamento dele estava tão distante, tão entranhado na coisa pensada, imaginada, desejada, talvez, que nem se deu conta de que ela estava ali, a vasculhar-lhe alma em silêncio de escafandrista.

– Em que estava pensando, perguntou-lhe enfim, sufocando, no entanto, a pergunta que latejava na garganta: Em quem estava pensando?

Soubesse, não teria chegado naquele momento: de onde estava (ou com quem estava em pensamento) até ali, ele se perdeu, e quem ergueu os olhos e a fitou com espanto foi outro que ela via pela primeira vez. 

3 comentários:

mARa disse...

Dessas fugas imaginadas, percebidas por quem não percebemos e de quem nada escondemos.

abço!

@SecretoPrazer disse...

Assim, coração na mão, mente nos olhos... Acontece!

Evelyn Postali disse...

Conhecemos as pessoas nos momentos mais impróprios. Ou não. Nos momentos mais estranhos. Ou não.
E com toda a certeza ela viu o outro que nele habitava, toda a vez que fugia, toda a vez que se deixava levar para longe dali. Ela, por certo, se surpreenderia consigo mesma, se conseguisse ver realmente em que ele estava mergulhado totalmente de alma...

Parabéns!
Excelente conto!