6 de set. de 2012

A puta - VII

Por Marcia Barbieri

Às vezes, me sento na estrada, fico perseguindo o sol, como se minha vida dependesse urgentemente desse ato boçal, abro as pernas e sinto o vento e a areia me assediando, ali mesmo solto um mijo ocre, quente, depois no lugar daquele minúsculo lago artificial, cutuco a terra e como as raízes novas, é como degustar o sabor das suas origens, é como descobrir o gosto que terão seus descendentes, é como destrinchar seres primitivos pelo umbigo, é como desterrar carcaças ancestrais. Toco nos chifres ocos dos antílopes e os imagino rasgando o útero leitoso do universo numa cópula bruta e universal. Comendo terra me acostumo com a cova. A insipidez do nada. Quando morrer meus ossos descansarão em paz. Morto de verdade não faz peso na terra. Seus ossos viram poeira pó de mico feitiço em tacho de bruxa. Perguntei ao Gaguinho porque ele seguia aquele homem louco, barbudo e com fucinho largo, de muitos amigos, cheirando o traseiro de todo homem. Sei não, não sou de fazer muita pergunta. Repara não, sou calado, lábio selado, casco de cavalo na língua. Falasse mais a vida tinha encurtado as pernas. Imagine só uma vida de pernas curtas, tão engraçado. A vida inteira passei trabalhando e seguindo homem bronco. Escarrador de palavra no chão. Gente que soca discurso com pilão, come cabeça de porco, língua de boi. Verbo rasgado, curto. Pouca polidez na carranca. Criando e adubando desafetos só por medo de desaguar. Fingindo que choro é erva daninha. Homem desaguando é maricas. Tapeio minha cara e ela é dura feito cara de burro arredio. Dura feito escultura de madeira, mas madeira quando infesta de cupim fica fofa, desmancha com um sopro, a minha danou a desmanchar. Perdi o cabresto tarde, por muito tempo andei olhando o mundo sem viés. Acho bonito homem que olha o mundo de canto de olhos, de través e assim mesmo enxerga e assim mesmo relata história comprida, põe palavra na boca de gente muda, não conheço personagem de contador que também não seja um pouco contador ou mentiroso. Gente de faz de conta tem mais língua e saliva que homem de carne e osso. Corre mundo, vagueia debaixo da lua. Tem menos dente, mais ouro na boca. Mais brio nas carcaças. E tem também mais coragem, monta touro bravo, atira em malandro, desobedece matador, despista da bala. E eu catando praga da plantação de arroz pra ter o que comer. Amarrando tomate pra não tombar - é triste ver planta morta porque não aguentou o peso do próprio fruto, é como uma mulher que morre parindo filho - abrindo vala pra água escorrer, fugindo do guizo da cascavel, tomando pinga pra curar as palavras que foram apodrecendo lá dentro do estomago. Pinga cura tudo, até gripe brava. Às vezes penso que sou só ventríloquo. Palavra bonita... Conselheiro me explicou o que era e achei que sou um pouco isso. Um ventríloquo... oco por natureza. Por muito tempo só aprendi a ser telegrama, a fazer epitáfio, porque era meu papel, anunciava a morte dos parentes pra outros parentes, telefone nunca existiu aqui. Não queria ser assim, queria saber dar consolo. Na minha boca palavra tem peso de pai furioso, varinha de marmelo abrindo vergões vergonha da pele. Só sabia mesmo era dar notícia ruim de jeito calmo, por isso me chamavam. A calma era por causa da gagueira, a ruindade demorava a escorregar pela garganta. Os olhos enchiam d’água. Começava a falar da diferença dos pastos e da grama verde, do silêncio e do nó forte que só morto sabe fazer, dos mortos que viram santos, fazem milagres, das almas penadas que vagam felizes poraí. Quando me avistavam ao longe, acendiam velas, preparavam o leito, o banho, a roupa fúnebre, a bebida pra tomar o defunto. Tristes das famílias que não podem preparar e enterrar seus mortos. Palavra saia fraca, parecia dedo mindinho, restinho de leite em teta de vaca anêmica. E olha que dentro da minha cabeça os sentimentos eram muitos, acho que todos eles viraram coágulos, feridas de joelho. Agora tenho que segurar as unhas pra não rasgar com muita força a casquinha e deixar o negócio sangrar. Acho que é herança de pai. Eu abraçava ele e o seu peito era como de um gorila. Olhava pro seu rosto e ficava tão fácil entender a tal da evolução. Comecei a duvidar de Deus, não por rebeldia, mais por constatação. Aquela que diz que não foi Adão e Eva, mas fomos levantando e virando homem. Meu pai não tinha terminado, estava no meio do caminho e deram alma de homem pra ele. Seu rosto era igualzinho de um macaco. Suas mãos grandes pareciam cascas de árvore centenária. Tentei ser menos animal que ele. Mesmo assim, conto em um dedo quantas vezes falei pra Aninha do meu bem querer. Me arrependo tanto tanto! E ela tão mais alta do que eu, difícil de alcançar, difícil de chegar até meus ouvidos os seus grunhidos. Por um tempo achei que talvez fosse surda, por isso falava tão mal. Não era isso, era desespero, era angústia porque mulher nunca tinha vez. Era café com leite. Um dia, brava, Aninha gritou que queria bem ser puta, deveria ter nascido já puta, porque puta falava, gemia. Puta pensava, era boa na aritmética, fazia conta pra não ser roubada, cortava à faca homem folgado. Mulher era que nem cachorro, só não tinha rabo por falta de destreza de Deus, tinha que viver lambendo a bunda dos homens. Eu ia dizer que não era assim, ela se virou, começou a mexer o doce no tacho grande e eu me esqueci de discordar. Meu espírito era de pouco argumento. Ela também falava tão pouco, sempre bordando no pano o mesmo morango. E nunca terminava. Chegava a me dar enjoo tanta fartura. Queria plantar morangos, mas o tempo era ruim e os morangos mofavam e morangos mofados traziam má sorte. Nos seus panos os morangos eram vivos e carnudos e não morriam. Eram feito plantação bem cuidada, plantio de rico. Um dia, por engano, tentei morder, arrancar a polpa. Aninha gritou, disse que eu estava ficando louco, querendo comer ilusão. E que por certo era a cachaça que tinha comido meu juízo. Coitada, não sabia que a fantasia é que faz a gente mais feliz. Faz a gente grande, vistoso, carne secando ao sol. Todos os homens que não acreditavam estão mortos agora e nem o odor de sua carne chega até nossas narinas. É preciso um pouco de mentira pra resistir. Todo suicida é um religioso esperando o perdão de Deus. E Deus está ocupado com outras coisas, como catar piolho de cabelo de criança. Minha cabeça queria mas minha cabeça dura não conhecia frase feita. Como sou feliz agora que conheço todas as frases de pára-choque de caminhão. Minha mãezinha falava que queria casar com caminhoneiro porque ele ia contar sobre as outras verdades que ela não conhecia, ia trazer lembrança de cidade santa, ia trazer água do mar em garrafa de tubaína.  Se tivesse casado com caminhoneiro todos os dias iria esperar na porta um novo homem, porque quando o homem sai de sua terra e conhece terra estrangeira, ele já é outro. E ela ajudaria ele a pintar as frases e apagar e escrever outra. Mãezinha não conheceu marido, mas se deitou com muito caminhoneiro. Ela dizia que se a gente não pode realizar um sonho inteiro, tem que se contentar com meio sonho. Também se deitou com um pescador. Ele colocou o apelido dela no barco, mas o barco logo naufragou. Ela nunca criou raízes, no entanto, ela não se entregou, não soluçou, ela entendia de cartografia e sabia que gente parada num lugar só cria micoses e as micoses distraiam sua solidão.

Um comentário:

Fernando Rocha disse...

Márcia, continua a escrever como quem profere golpes, as imagens têm extrema força. Este capítulo me fez lembrar de um diálogo de Blanche Dubois ao relatar para sua irmã como se sentiu quando morreram parentes próximos.
Sua escrita ao construir um mito torna-se mitológica (metalinguagem), pois é uma estória que não pode ser contada por quem a lê, apenas sentida no momento no qual a leitura é realizada.