28 de ago. de 2012

'Por enquanto agora', romance de Maria Christina Monteiro de Castro

Prefácio de Luiz Paulo Horta, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras

Belo Horizonte, meados do século xx. Classe média tradicional, católica. Tempo em que as famílias tinham muitos filhos, que as mães tratavam de educar ficando em casa. Tempo de lençóis cheirosos, guardados em gavetas trancadas.

Esse é o mergulho proustiano de Maria Christina Monteiro de Castro, em seu primeiro romance, que mistura ficção e realidade. É uma estreia tardia, de uma senhora de setenta anos que não tem cara de senhora; mas valeu a espera. É uma escritora nata. Que intensidade de vida comunicada num estilo repleto de expressões fortes e felizes!

Histórias de pessoas que gostam de ler, que têm bom nível intelectual (ah, tão longe do que a grande mídia nos serve hoje)... Mas é o Brasil profundo, em que mergulhamos apenas ultrapassados os primeiros capítulos.

Há ali pilhas de dados para sociólogos, psicólogos, psicanalistas... Mas há, sobretudo, gente, e gente interessante (vendo essas figuras tão bem delineadas, fiquei me lembrando de Dickens, cujos duzentos anos de nascimento são gloriosamente comemorados em 2012 ). Onde estão essas figuras, que povoavam as velhas casas de família? O avô materno, contador de histórias, amante de frases latinas... O avô que tinha surtos terríveis de cólera, e vivia com um galo na cabeça de tanto batê-la contra as paredes... O outro que lia muito, tinha paixão pelas guerras púnicas... O tio mulherengo (“Cada minuto de minha vida dediquei a fazer felizes as mulheres”) e o outro que respondia, quando acusado de adultério: “Ninguém tem ideia de como é cansativo ser casado com mulher inteligente 24 horas por dia!”

Mas as figuras centrais, na poderosa primeira parte do livro, são o pai e a mãe, desenhados com inesquecível relevo.

Da mãe vinha a religião; e desse tema ninguém podia escapar. A menina inteligente (que é a narradora do livro) embaralhava tudo: Quem é Deus? “Ah, meu Deus, essa menina faz cada pergunta...!” É a menina que conta: “Para o bem e para o mal, fomos moldados por seu nome: onipresente, onisciente, implacável, perfeitíssimo.” Era a marca que o jansenismo francês imprimira ao catolicismo brasileiro, e que ainda recentemente estava em vigor... Resultado, anota a narradora: o ser humano como náufrago em mares encapelados, à mercê de forças ocultas.

A menina sensível, imaginativa, ia à forra lendo muito, lendo de tudo. E a casa cheia de gente era divertida. Declamava-se! Fazia-se teatro, sem a televisão para cortar tudo... Mesmo nas famílias felizes, existe a luta por um lugar ao sol. Muito mais sensível na família antiga, que era um ambiente mais fechado. Nesse belo romance (realidade?) de formação, vê-se o jogo das quatro irmãs em torno da figura carismática do pai.

A família pede que cada uma delas se defina. (“Só depois percebi: cada uma estava amarrada ou se amarrara a um papel na constelação familiar.”) Era como usar máscaras. E sobre a casa inteira reinava o pai, deus tutelar, objeto de reverência e adoração. Político bem-sucedido, distribuía agrados às filhas, cultivava a sua corte.

Nesse quadro, lenta e segura, transcorria a vida. “Viver era simples e garantido, como o cheiro do refogado às 11 horas.” Depois, em visão retrospectiva, é que se iam descerrar as cortinas, fazer-se luz sobre certos comportamentos — a paixão daquele por aquela, a doce perversidade do tio, o choro contínuo da filha da vizinha, a casa vendida às pressas, os primos jurados de morte...

Não vou contar as histórias; não tiro esse prazer de vocês. Só deixo registrado que esse romance/realidade se lê como uma comovente educação sentimental ao estilo de Flaubert: como as quatro irmãs foram saindo dos seus casulos (para o que colaborou, claro, a mudança desafiadora para o Rio de Janeiro); como a realidade exterior (a política, em período dramático da vida brasileira) foi interferindo nas existências individuais (começando com a carreira cintilante do pai).

A história mais desenvolvida, como não podia deixar de ser, é a da narradora, que é, ela própria, todo um romance, com a sua ânsia de vida, sua mente inquieta, suas rajadas de paixão... Assim ela passa por um casamento que teve os seus bons momentos (a calmaria da maternidade, um certo sentimento de plenitude, aquele egoísmo dos casais felizes) até que o dia a dia faça passar o seu rolo compressor... e aí a lucidez retorna em forma de dor, de hiperconsciência; e nada escapa desse olhar, nem a realidade brasileira nem as utopias (julgamento severo, cortante, do casal Sartre/Simone de Beauvoir, observado na viagem deles ao Brasil, cercado de dóceis admiradores...)

O fracasso do casamento abre as portas para os capítulos finais, em que todas as histórias (irmã por irmã) vão-se delineando sem perder a sua carga de inesperado e de inacabado. É uma mulher madura (e sozinha) que conta essas últimas histórias, em que se misturam tristezas e alegrias. Não é assim, a vida?

Mas de tantas histórias, fica esse enigma fabuloso que é o ser humano, com suas vitórias e derrotas. No caso desse livro, tudo compensado abundantemente pela presença de um grande coração. Que não se cansa de bater.

Autor: Maria Christina Monteiro de Castro
ISBN: 978-85-61022-69-3
Número de páginas: 280
Preço de capa: R$ 38,00

Um comentário:

Graça Pereira disse...

Deve ser delicioso ler este livro...
Gostei do espaço e do nome que lembra tardes de ternura à volta de um chá quente...em dias de muito frio.
Um abraço
Graça