7 de jul. de 2012

Ossos

Por Daniel Lopes

Há um cemitério e as cruzes são de todas as cores e estão molhadas.
Parece que vão derreter,as cruzes.
E ali debaixo há alguém que se matou.
Alguém que tentou escrever um livro e não conseguiu.
Alguém que tentou tocar violão e não aprendeu.
Alguém que matou a esposa,
Passou a vida inteira preso e um dia,
Sem mais nem menos,
Morreu.
De todas as idéias geniais: OSSOS.
De todos os grandes amores: OSSOS.
De todas as pessoas boas, de todas as pessoas más: OSSOS.
Ossos fortes e duros
Cheios de cálcio e escuridão.
Ossos de crânio, fêmur, dentes.
Ossos de Jackson Pollock nos Estados Unidos.
Ossos de Fernando Pessoa em Portugal.
Ossos de Federico García Lorca perdidos em algum lugar de Espanha.
Ossos brancos, cinza, pretos, mas nunca vermelhos.
Debaixo da terra.
Enquanto aqui em cima a água escorre pelas tumbas e o cemitério não ofende a ninguém.
Na rua
Paralela às cruzes molhadas,
Um senhor passa dentro de um carro,
Vai levar o netinho à escola.
Ao lado do cemitério
Construíram uma escola verde,
Onde, neste momento,
As crianças entram em algazarra.
Há um pé de laranja lima perto do pátio.
 

2 comentários:

Fernando Rocha disse...

Lembrei da "Caveira", do Cruz e Souza, forma moderna, temática medieval, que se foda a tal pós-modernidade, o que resta senão OSSOS e ideias.

Anônimo disse...

Não apenas ossos sobram, mas também a tinta! Deus salve a invenção da caneta!!hehe