2 de jul. de 2012

O albergue

Por Nilto Maciel

Há muito tempo cheguei ao albergue. É assim que chamam este lugar. Para mim é uma fazenda. Vejo bois no pasto, peões andam para lá e para cá, capatazes armados fumam cigarro de palha, cobrem o rosto com enormes chapéus caídos, cospem com estardalhaço. O movimento das pessoas é intenso, dia e noite. Ouve-se música ao longe. Multidões gritam, aplaudem. Não sei se são shows ao vivo ou meras transmissões por rádio. Não ouso tirar a dúvida. A música não me agrada. Outras vezes me parece não se tratar de fazenda e sim de prisão, manicômio ou casa de recuperação. Não cometi crime nenhum, não sou doido, nunca usei drogas. Então, por que estou aqui? Mais uma pergunta feita a mim mesmo. Ora, os outros também não me fazem perguntas desse tipo. 

Se não me engano, há uma placa enorme na entrada, a indicar que estamos num albergue. Ou terei sonhado isto? E se não for albergue, mas fazenda ou prisão, minha vida e a dos outros mudará? Nunca perguntei onde estamos e ninguém nunca me fez perguntas desse teor. Mais estranho ainda é não saber em que tempo estamos. Dia desses vi Jesus a carregar uma cruz. Soldados davam-lhe chicotadas. Mulheres choravam e nada podiam fazer. Estaremos no ano 33? Não, isso é teatro – explicou-me Pedro. Não ouves o rádio, Rodarran?

Todo dia o emissário do rei chega. (Já ouvi falarem em rei, tenho certeza disso, e também em rainha. Não sei se se trata da mesma pessoa.) O alto comissário (assim também o chamam) desce da carruagem (como explicar isto, se estamos no tempo do rádio?), dá ordens ao cocheiro e aos ajudantes e, apressado, botas rústicas e sujas de lama ou poeira, roupa de couro, escura, barba grossa, dirige-se ao diretor (também chamado de gerente) e se encaminha para as celas (que chamam de quartos, apartamentos, casas). Volta horas depois, calmo, mas ainda apressado, a gritar “vamos, vamos, antes que anoiteça”. Dirige-se aos curiosos, para que se afastem, e ao interno que o segue.

As explicações para essas visitas do mensageiro do chefe (há também esses termos) são as mais disparatadas. Todo mundo fala pouco ou quase nada, aos sussurros, e somente quando tem certeza de que não está ao lado de um delator. São poucas as pessoas com quem converso. Pedro é uma delas. Mesmo com ele, tenho o máximo cuidado. E quase sempre espero pela iniciativa dele. Ontem levaram José. Para onde? Para uma viagem longa, a um reino muito distante. Nem sabe se voltará. Tem parentes lá? Não soube me dizer.          

Lembro bem de outros viajantes de quem nunca mais ouvi falar. Ieda partiu há mais de ano. Disseram ter ido visitar o reino, isto é, a sede do reino, também chamada de coroa. Não se sabe por quê. Na verdade, ela nunca me disse ter vontade de visitar a capital. Mas ninguém mais fala dela. Pedro me parecia confiável, embora saiba demais. Chego a acreditar em traição. Parece-me andar me rondando. Já o vi, noite dessas, atrás da vidraça de meu quarto. Tomei um susto e ele sumiu na escuridão. No outro dia perguntei se estivera a me espionar. Espantou-se e negou. Por que iria me observar? Mas tenho quase certeza de que é protegido. Pois nunca o chamaram a viajar. Já o encontrei aqui. Há muitos anos vive no albergue, informou um rapaz, dias depois. Por coincidência, passado um mês desse rápido diálogo, o jovem viajou, para sempre.

Quase todo dia me contam novidades. Ou as descubro. Gosto de especular a vida alheia. Hoje perguntei por aquele homem raquítico (não sei o nome dele) que fuma e bebe sem parar, e passa as noites a ouvir Pixinguinha. Como nunca mais o vi, queria saber se o tinham levado à presença do maioral. Dias antes o coitado se salvou por pouco. O alto comissário se aproximou de nós e perguntou se conhecíamos um “poeta” (usou esta palavra, de forma enfática) apaixonado por Pixinguinha. Salvou-o um sujeito com cara de bobo: Oh! Como está o nosso Pixinguinha? Toca tão bem! Distraído, o mensageiro mudou de assunto e perguntou pela moça bonita que gostava do cangaço. Não a conhecíamos. O homem então embarafustou pelos corredores, a carregar uma porção de fichas.
Tenho poucos amigos, como Jorge e Cândido. Andam sempre com Pedro. Mas não desconfio deles. Isto é, não os vejo como delatores. Jorge gosta de contar piadas, até com os nossos colegas que viajam e nunca voltam. Às vezes conversa com o emissário da coroa, faz brincadeiras, imita o sujeito, que ri e se retira de mansinho. Ontem perguntou por José. Vai bem. Está até escrevendo um livro. Perguntou também por Ieda. Esta é amiga do rei.

Todo dia chegam levas e levas de moradores: gaúchos, cearenses, italianos, japoneses. Não se misturam logo aos mais antigos. Vêm desconfiados. Falam pouco, evitam conversa comprida. Cândido tentou se aproximar de uns gaúchos. Rechaçaram-no. E até o acusaram de traição, pois no dia seguinte um deles foi conduzido, educadamente, à sege vinda do reino. Por que vais viajar, tchê, se mal chegamos? Ele ria, chimarrão na boca. Eu volto logo.

Dos que partem para o centro do reino temos vagas notícias, nos primeiros tempos. Aos poucos, porém, todos se vão esquecendo deles. De vez em quando alguém se lembra de fulano, no meio de um jogo de cartas. Os outros fazem ouvidos de mercador.

Nossa maior diversão continua sendo baralho, dominó e, às vezes, xadrez. Passamos horas e horas nisso. Olhamos para os bois no pasto, vemos os peões azafamados, no horizonte nuvens escuras anunciam chuvas fortes, depois escurece e cada um volta ao seu lar.

Como se chamado por uma voz inaudível a nós, Pedro costuma se retirar do jogo, sem explicação. Talvez vá fazer anotações. Jorge, muitas vezes, esquece de jogar a carta ou mexer a peça no tabuleiro, como se estivesse em outro mundo. Retira do bolso uma caneta (desconfio de que não seja caneta), afasta-se, às pressas, esconde-se atrás de uma árvore ou de uma pilastra e fala baixinho. Volta à mesa, rindo, e se despede dos parceiros. Precisa visitar alguém.

Quase sempre fico só, a baralhar as cartas ou arrumar o tabuleiro, porque também Cândido some feito sombra. Não sei mais se deva confiar neles. São muito esquisitos. Não poucas vezes flagrei Jorge e Pedro em confabulações misteriosas, em falas baixas. Quando me veem, aumentam o volume das vozes, riem e me abraçam efusivamente, como se pela última vez.


 * Este é o oitavo conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

Um comentário:

William Lial disse...

Um belo conto do Nilto (mas ele já sabe da minha opinião desde quando postei uma resenha sobre esse seu livro no meu blog). O livro todo é muito bom, e este conto em especial é dotado de uma sensibilidade maravilhosa. Sonho, loucura, memórias nubladas e um toque de fantástico dão o tempero do texto.