16 de jul. de 2012

Machado e Carolina (cenas 1 e 2)

Por Rogers Silva

Primeiro, único e definitivo ato

Cena 1 – Sobe o pano. À noite, na sala da casa de Machado. Rio de Janeiro, 1908.

Machado (em frente ao espelho, se olhando) Um velho solitário enxerga tudo, meu caro, até o que não existe.
O espelho – Um espelho, meu caro, enxerga tudo: além do que não existe, o que nunca é visto por ninguém (responde, mas Machado não o escuta.)
Machado – Melancolia nos faz inventar, meu caríssimo espelho.
O espelho – Um século de Falta, meu caríssimo Machado, mesmo sendo objeto, nos faz delirar, o que é mais grave.
Machado – Dor, saudade, tristeza...
O espelho – Vazio. Falta de sentimento. Nada. Sem emoção. Oco. Vago. Impotência.
Machado – Tudo o que eu queria...  (cala-se)
O espelho – Tudo, palavra bonita.
Machado – Tudo o que eu queria não consigo dizer nem para mim mesmo. Deus.
O espelho – Medo...  (Machado não o escuta). Quem me dera tê-lo. Ou tenho e não sei?

(Machado passa as mãos sobre a barba grisalha, nos cabelos crespos, se vira e vai sentar-se numa poltrona em frente ao espelho. Senta-se. Fecha os olhos.)



Cena 2 – À noite, um dia depois, na sala da casa de Machado. Ele caminha inquieto, vagarosamente, os olhos baços, meio emborcado. Semblante triste. Melancólico.

Machado – Por quê?...
? – ...
Machado – Se...
? – ...
Machado – Quem está aí?... (pergunta, sentando-se na poltrona – sempre a mesma poltrona –, os olhos se direcionando ao nada). Quem está aí?...
? – Sou eu.
    
(Machado de Assis não sabe o que falar – as palavras foram trocadas por um silêncio emocionado.)

Machado – Mas...
? – Por favor, sem perguntas... Sou eu. Eu e você, enfim, novamente juntos.

(Machado sorri, familiar com o timbre da outra voz.)

Machado – Você não sabe...
? – Pode acreditar: sei, sei sim. Por isso estou aqui. Pois sabia o quanto significaria para você.
Machado – Mas...
? – Por favor, não chore, agora não, já chorou tudo o que poderia ter chorado. Apenas sorria. Ou não está feliz?
Machado – Claro que estou. Estou. Muito.
? – Quais são as novidades?
Machado – Eu que pergunto: quais são as novidades? Aqui, como sabe muito bem, sempre a mesmíssima situação. O mundo e suas vidas. Sabe muito bem.
? – Sei. Contarei, mas não agora. Tenho que ir.
Machado – Já? Para onde?
? – Acalme-se. Um dia saberá. Ainda conversaremos muito. Contarei as boas e paraísas novas.
Machado – Sinto falta desse seu sorriso (olha para trás. Nada vê. Murmura) Já se foi.


* Dia 19, aqui n'O BULE, confira a continuação da série Machado e Carolina.

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