26 de jul. de 2012

Machado e Carolina (cenas 8, 9 e 10)

Por Rogers Silva


Cena 8 – 1908, após as recordações.

Machado – Foi uma grande loucura (ainda aéreo).
Carolina – Sim, foi. Uma declaração de amor.
Machado – Fico feliz em saber que fui eu a razão dessa loucura.
Carolina – Foi. Você.
Machado – Depois de velhos...
Carolina – Me sentia a garota mais viva desse mundo, naquele dia...
Machado – Deu para perceber (sorri).
Carolina – Loucuras são necessárias à vida.
Machado – É verdade.
Carolina – Hoje conversamos demais.
Machado – Todo tempo com você é pouco.
Carolina – Mas tenho que ir. Infelizmente.
Machado – Sim, infelizmente (silêncio). Carolina?...


Cena 9 – À noite, um dia depois, na sala da casa de Machado. Devagar chega à poltrona. Emborca e se apóia no seu espaldar. Senta-se.

Machado – Me chamou?...
Carolina – Ah, sim.
Machado – Carolina?... (pausa). Que brilho é esse?
Carolina – Há lágrimas sobre seus olhos. É de onde vem o brilho.
Machado – Ah, mas... (é interrompido).
Carolina – Dentro. Caindo. Lágrimas.
Machado – Ou melhor, lágrimas de alegria.
Carolina – De tristeza... não seriam?
Machado – Estar triste agora, perto de você?
Carolina – As lágrimas, quando cheguei, nos seus olhos já estavam.
Machado – Saudade sua.
Carolina – Seria medo, não?
Machado – Impossível.
Carolina – ’Stou aqui, não precisa ter medo.
Machado – Eu, um velho, com medo... da morte. Irônico.
Carolina – Calma. É desnecessário o seu medo. Não teria medo se s... (se interrompe).
Machado – Anh?, se o quê?
Carolina – Releve o que eu disser.
Machado – O que ia dizer?... (abaixando a cabeça, rendido).
Carolina – Livre-se do... (se interrompe novamente). Esquece... não posso falar... A morte não existe (silêncio).
Machado – Incondicionalmente, todo anjo tem esse brilho? (pergunta, contrariado, mudando de assunto).
Carolina – Nem todos.
Machado – Ah, não?... Mas e eu, terei esse brilho dourado?
Carolina – Ah, sim, o seu será maior.
Machado – Um brilho dourado... (sussurra). Como sempre, tentando me agradar.
Carolina – Garanto: o seu será o maior.
Machado – Um brilho... (imaginando). Obrigado, então (para Carolina).
Carolina – Se preocupa não (sorri). De nada. Tchau.

(Ouve-se um soluço.)

Machado – Tchau? Por quê? Não vá agora.
Carolina – Ah, Machado, o que eu não faço por você. Ficarei.
Machado – Xavier... Não gostava do seu sobrenome... (murmura). Sim, estou com medo (diz bruscamente).
Carolina – Amor, não tenha medo.
Machado – Vem, então, e me abraça.
Carolina – Infelizmente não posso.
Machado – Eu suplico, por favor.
Carolina – Realmente não posso. Tenho que ir. Tchau.


Cena 10 – À noite, um dia depois, na sala da casa de Machado. Faz horas que está sentado na poltrona.

Carolina – Abra as janelas.
Machado – Carolina?... Estava te esperando.
Carolina – Que bom. Abra as janelas. Deixe a brisa entrar. Está uma noite linda.

(Machado, muito fraco, levanta-se, se direciona à janela, abre-a, volta e senta-se novamente.)

Machado – Melhor?
Carolina – Sim.
Machado – Tinha razão. Que vento gostoso. Gostosíssimo, diria José Dias (sorri). Minha saúde não permite, mas...
Carolina – Ar fresco é muito bom para a saúde.  
Machado – Tomara (silencia). Por que este olhar carinhoso, plangente?
Carolina – À toa. Nem tudo tem explicação.
Machado – Eu sei. Sei muito bem disso. Infelizmente.
Carolina – Felizmente. Felizmente... Os enigmas são a essência da vida.
Machado – Os enigmas são a angústia da vida.
Carolina – São a razão de se viver.
Machado – E de se suicidar.
Carolina – Que dia é hoje?
Machado – Embora anjo, ainda preocupada com o tempo? (sorri, entre irônico e sereno).
Carolina – É tudo que temos.
Machado – Como assim? Explique melhor.
Carolina – É uma longa história.
Machado – Vinte e oito de setembro de mil novecentos e oito.
Carolina – Meu Deus. Tenho que ir.
Machado – Por quê? Fique mais.
Carolina – Não posso.
Machado – Fique, por favor.
Carolina – Não posso.
Machado – Por que, então?...
Carolina – O quê?
Machado – Das visitas. De tudo!... (inconformado).

(Silêncio.)

Carolina – Não sabe o sacrifício que foi em estar aqui com você.
Machado – Mas por quê?...
Carolina – Como regressar ao sol após descobrir o quão delicioso é se deixar molhar pela chuva?... (rendida).

(Machado a olha, intrigado.)

Carolina – Saiba que devagarzinho eu ia ostentando e ornamentando a confusa idéia que eu propunha a mim mesma (num princípio de emoção), de identificar as íris daquele dia em que percebi que seríamos sempre UM, independente da ocasião ou lugar. Nesse momento eu acreditei que podia e queria. Embora eu estivesse num outro corpo, real e odiosamente mentiroso (num mundo bonito mas que louva o ridículo), eu consegui tocá-lo com a roupa celeste que eu vestia por cima da roupa terrena que você vestia, já no fim da esperança (os olhos se lacrimejando), mesmo sabendo que se eu fosse (viesse) embora acreditando eu eu me alimentaria de abraços invisíveis no outro (este) mundo, infinitamente bem mais leve, mas infelizmente me sobraria apenas a miragem com a qual só se sabe sonhar. Ah tanto quis ter aquele seu remoto olhar que se interessava, desconfiado e carinhoso, pelo meu sono! Parecia, e somente parecia (mais calma), hoje eu confesso, uma ruidosa aproximação silenciosa na qual havia sorriso no rosto, cuidados e uma restrita vicissitude enquadrada no círculo da lógica dos tempos (de todos os tempos) que existirem e eu achei em um deles a possibilidade de gozar, e gozei. Que mal há nisso? O diálogo do dia seguinte que nunca pôde e nunca poderia acontecer eu quis eu quis e apesar do malogro certo, das intrigas e das leis dos intrometidos de lá (inconformada) eu quis e vim e acabei por me acostumar ao pior e (in) quieta demais mas enfim rindo rindo porque nem aquele céu pretensioso conseguiu impedir meu propósito efêmero. Como eu poderia excluir você (chorando) ou ao menos diminuí-lo da minha vida se é (era) a sua louca e complexa mente, diferente de todas as outras que vieram e virão, que me encanta(va) a ponto de me fazer chorar? Por quê?... Porque me dei conta de que a minha vida após (bem eu sei) seria difícil e triste sem os rumores da sua que é plena de vida (muito emocionada) pois amávamos a dança o canto o girassol da infância da qual você sempre se lembra. Então escolhi o sublime, sublime passageiro mas sublime. Não me importo se agora resta apenas a possibilidade remota de juntar e desenhar as nossas estórias mesmo em ruínas com a sábia arte de pintar no ar (e com os dedos) o que não pousa. (E por fim) Eu eu não desperdiçaria o meu tempo /
distante de você. 
   
(Silêncio.)

Carolina – Agora sim. Adeus, Machado.
Machado – Mas... (se cala. Não havia ninguém. Olha ao espelho. Fecha os olhos. Vagarosamente. A si mesmo murmura) Adeus. (Em seu rosto mulato, enrugado, duas lágrimas escorrem).

(Desce o pano.)

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