23 de jul. de 2012

Machado e Carolina (cenas 5, 6 e 7)

Por Rogers Silva


Cena 5 – À noite, um dia depois, na sala da casa de Machado. Está sentado na poltrona, à espera.

Carolina – Conheci um tal de Policarpo Quaresma.
Machado – Carolina?... Que bom... Quem?
Carolina – Major Policarpo Quaresma, para ser mais exata. Muito animado, ele. Parece criança. Ingênuo... Sua companhia tem me alegrado, ajudado a passar o tempo.
Machado – Brasileiro?
Carolina – Sim. E daqui, do Rio de Janeiro.
Machado – Não conheci.
Carolina – Morreu, senão me engano, em 1894. Há 14 anos... Tinha menos de cinqüenta anos.
Machado – Morreu de quê?
Carolina – Ué, Machado, quer agora falar de morte?
Machado – Curiosidade...
Carolina – Foi condenado à morte pelo governo de Floriano Peixoto.
Machado – Nunca gostei desse Floriano...
Carolina – Traidor da pátria... Diz que morreu injustamente. Na verdade, foi o que menos fez enquanto vivo, diz: trair a pátria. Apaixonado pelo Brasil, ele era.
Machado – Triste fim.
Carolina – Muito. Foi muito ridicularizado, diz, por algumas idéias extravagantes.
Machado – Quais?
Carolina – Um dia, parece, escreveu um decreto para que se mudasse a nossa língua, de português para o tupi-guarani.

(Machado de Assis sorri um sorriso triste.)

Carolina – Engraçado, ele. Gosto dele.
Machado – Que bom...
Carolina – Tenho que ir.
Machado – Fale mais dos seus conhecidos do outro mundo
Carolina – Agora não. Depois.
Machado – Olhe para mim, pelo menos.
Carolina – Impossível.
Machado – Por favor... Apenas uma simples despedida... Necessito.
Carolina – Também queria, mas...
Machado – Tudo bem. Adeus.
Carolina – Até breve. Até amanhã.

Cena 6 – À noite, um dia depois, na sala da casa de Machado. Três segundos após sentar-se na poltrona, chama:

Machado – Carolina?... Lembra-se daquele ano em que eu...
Carolina – Lembro...
Machado – Mesmo velhos, parecíamos crianças naquele dia.
Carolina – É verdade.

(Recordam-se...)

Cena 7 1900, oito anos antes. Carolina se encontra sozinha em casa. No vidro do espelho, ela escreve, em cima, com uma tinta líquida, o seguinte:

Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
   
(Depois, com os mesmos dedos indicador e médio, Carolina, logo embaixo, continua)

...deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois

(Continua o trabalho, as mãos e a roupa sujas da tinta preta)

Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma

(E mais abaixo, próximo à moldura envelhecida do espelho, a última frase)

...casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira (O espelho, MACHADO DE ASSIS)

(Aproximadamente uma hora depois, Machado de Assis chega. Ao olhar para o espelho, estranha. Olha à esposa, querendo saber. O que é isso? Esses escritos?... – seus olhos e atitudes parecem indagar.)

Carolina – Lembra-se? (ela pergunta).
Machado – De quê? (desentendido).
Carolina – De tudo isso que escrevi, que na verdade é seu?
Machado – Sim. Mas... (ainda confuso).
Carolina – Uma homenagem a você.
   
(Ele ainda não compreende. Carolina vai até o espelho. Logo abaixo à primeira frase (Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...), num espaço vazio entre a segunda, escreve)

Carolina e Machado

(E sorri. Machado também sorri. Ambos sorriem, harmoniosos. Depois, ela, abaixo à segunda (...deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois), completa)

E encontrei você
  
(Sorrisos.)

(Entre a terceira (Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma) e a quarta citação, preenche)

Meu amor, saiba, é infinito
   
(E no final (ela se ajoelha), perto da moldura e do chão, após (...casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira), termina)

Eu não desperdiçaria meu tempo distante de você

(Chegam-se, calados e emocionados, perto um do outro. Abraçam-se. Nada falam. Olham-se em silêncio. Livram-se, lentamente, das vestimentas. A madrugada que se estende lá fora, aqui dentro, no quarto, entra por meio do vento, pétala, da claridade, nítida, das estrelas, métricas. Abraçados, os velhos sexagenários, enrugados, nus, posto que sexualmente não excitados, se beijam.)

* Dia 26, aqui n'O BULE, confira a continuação da série Machado e Carolina.

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