19 de jul. de 2012

Machado e Carolina (cenas 3 e 4)

Por Rogers Silva


Cena 3 – À noite, um dia depois, na sala da casa de Machado. Está sentado na poltrona.

? – Conheci um tal de Brás Cubas lá do outro lado do mistério. Fica o tempo todo escrevendo umas memórias.

(O esposo sorri.)

Machado – Gosto desse seu sorriso irônico e ao mesmo tempo bondoso. (Pergunta) Sabe quando nos encontraremos, quero dizer... alma e fisicamente?
Carolina – Não... não nos cabe sabermos.
Machado – Alguém sabe?
Carolina – Creio que não.
Machado – Existe um Ser-Criador, Deus?, ou é mera fantasia humana?
Carolina – Paciência, espere, um dia... (é interrompida).
Machado – Se soubesse...
Carolina – Eu sei.
Machado – O quê?
Carolina – O que você ia me falar.
Machado – Mas...
Carolina – Pode completar.
Machado – Se soubesse o quanto sinto a sua falta.
Carolina – Logo você, meu Machado, que tanto aboliu os clichês.
Machado – Às vezes um clichê, quando verdadeiro, fala mais que as mais bonitas e desusadas das palavras.
Carolina – Eu sei.
Machado – Ãnh?...
Carolina – Da saudade que sente por mim. E eu por você.
Machado – Mas, e o Paraíso? Lá não têm alternativas melhores do que ficar relembrando da Terra?
Carolina – Depende... Depois conversamos mais. Tenho que ir.
Machado – Mais uma vez sua companhia foi ótima.
Carolina – A sua também.
Machado – Espero vê-la novamente.
Carolina – Verá.
Machado – Pegue em minha mão (estendendo-a, num gesto de cumprimento).
Carolina – Impossível.
    
(Machado ergue o rosto que havia abaixado, porém nada enxerga.)


Cena 4 – À noite, um dia depois, na sala da casa de Machado. Após um caminhar lento, arrastado, senta-se na poltrona.

Machado – Você novamente... (murmura).
Carolina – Como sabe?
Machado – Trinta e cinco anos de convivência nos proporcionam um grande conhecimento da pessoa: gestos, modo de olhar, atitudes inesperadas, respiração...
Carolina – Irônico você, como sempre.
Machado – Além de Brás Cubas, quem mais conheceu no outro lado do Mistério?
Carolina – Muitas, muitas pessoas: um que se diz pai de Beethoven, apesar de não lembrar do próprio nome; José de Alencar, aquele seu amigo escritor; o Felisberto...
Machado – Quem é esse?
Carolina – Um fazendeiro mineiro. Foi assassinado.
Machado – Me fale de vida.
Carolina – Desculpa.
Machado – Em morte estou cheio de pensar.
Carolina – Outra vez me desculpa. Conheci também, acredite, Quincas Borba.
Machado – Não conheço (sorri, posto que tristemente). É normal isso?
Carolina – O quê?
Machado – Esses encontros extras-Paraíso?
Carolina – Sim. Muito freqüente. Mas... vocês, os humanos, pouco comentam... Os outros tachariam louco quem se atrevesse a falar das relações com os anjos.
Machado – Anjos?
Carolina – Ou qualquer nome que queira dar. Falo anjo por ser esta a palavra que comumente se designa a nós.
Machado – E vocês, como se nomeiam?
Carolina – Saberá quando for o tempo. Controle sua ansiedade. Soube muito enquanto vivo, mais do que a grande maioria. O resto, deixe para quando for o tempo.
Machado – Não é ansiedade. É angústia. Que... (se interrompe). Esquece... Suas visitas me consolam.
Carolina – Esse é o propósito.
Machado – Eu te amo.
   
(Silêncio.)

Carolina – Ah, meu Machado, meu Machado...
Machado – Por quê?
Carolina – ...

(Um denso silêncio.)

Machado – Leu o soneto que fiz dedicado a você? (débil recomeça).
Carolina – Não. Leia para mim.
Machado – Claro (vai a uma cômoda, abre a gaveta, pega uma folha, volta e se senta numa cadeira, próxima a uma mesa. Cansado, a voz fraca, declama)

A C A R O L I N A
Querida! Ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida,
E num recanto pôs o mundo inteiro...
Trago-te flores – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos,
E ora mortos nos deixa e separados...
Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos!...

Carolina – Triste, mas lindo...
Machado – Exatamente como você me deixou.
Carolina – Não foi proposital.
Machado – Eu sei, tirante os suicidas, que escolhem a que horas e como vão morrer, não temos poder sobre a morte.
Carolina – Paremos de nos lamentar.
Machado – É a única coisa que me sobrou.
Carolina – Não é não. E você sabe disso.

(Silêncio.)

Machado – Carolina... Carolina...  (não ouve resposta). Seria muito lhe pedir apenas um toque? (e nada vendo, ouvindo, responde) Sim, seria muito.


* Dia 23, aqui n'O BULE, confira a continuação da série Machado e Carolina.

3 comentários:

Maria de Fátima disse...

ah! que espanto! e olhe como as coisas v~em parar ás nossas mãos: eu precisando fazer uns diálogas para uma tertúlia que se reune em torno de literatura! diálogos lidos é a fase em que vamos estar a partir de setembro
quando escrever lhe envio :)

Cesar disse...

Desejo boa sorte ao colega Rogers. Machado de Assis é sempre bom de ser lembrado.

Cesar disse...

Machado de Assis é sempre bom de se lembrar. Boa sorte ao colega Rogers.