20 de jul. de 2012

Dois poemas de Álisson da Hora


 Édipo em Colono

meus pés incham
como uma raiva na encruzilhada dos caminhos
tortos
como meus olhos
calcanhares medrados nos grãos de areia
das ampulhetas derramadas
o meu fado
inconveniente nascimento
era melhor não ter vindo
ter tido outra escolha
do que submeter-se à luz dos dias
pátios destroçados
órbitas trespassadas por agonia
facas cegas

da região das horas era melhor ser um segundo esquecido
uma chama de vela assoprada pelo capricho dos erros
o erro certamente é existir
e ser esfinge para tudo
morrer no exato instante
da decifração


Das distâncias contínuas

tudo paira perdido nas beiradas

o pó o cigarro não aceso o vento 
que sacudiu pedras e adeuses
os bicos das aves que se acariciam 
sob a sombra de marquises de olhares

tudo paira perdido nas beiradas

as gotas que descem pelas calhas
os restos de meteoritos não flagrados
pelas câmeras deficientes da vida das brisas
largadas pelos ritmos dissonantes agoniados

nas beiradas
a perdição

as distâncias torturantes 
o dedo que risca o vidro embaçado
e desiste de desenhar o nome 
a mirada desistente que perscruta 
o caminho entre o chão e janela

tudo paira perdido nas beiradas

estou a noventa e um centímetros de mim
nem mais nem menos
estou a meio caminho de uma dissolução estranha
vestida de certezas que zombem nas ruas
vestida de águas que lavam minhas mãos
vestida de uma estranha luz que invade o escuro
e risca meus olhos cansados de palavras inúteis
estou a noventa e um centímetros de mim
a meio caminho de algo que não sei
e que provavelmente guarda uma pedra no meio
só uma - não cabem mais

as beiradas desmancham-se ao toque de um sorriso 
um sorriso louco, de uma mansidão absurda
de uma perdição absurda
como um choque de asteróide no escudo guardado
encravado no coração esquecido do hoje

tudo paira

Álisson da Hora, nascido em Recife, estudou Letras na UFPE, onde também cursou mestrado em Teoria da Literatura. Tem três romances e dois livros de contos não publicados, e escreve no blog Todo Anjo é Terrível  http://pontispopuli.blogspot.com, onde podemos encontrar parte de sua produção.

Um comentário:

André disse...

O que eu mais me assombro e admiro nos textos do Álisson é um pessimismo claro, sincero e escancarado. Debochado também. Me lembra Bukowski, mas menos malacabado e "prostituído" (por assim dizer e a palavra requer as aspas de uma metáfora deslocadíssima).

Mas, além disso, é que esse pessimismo me permite compreender melhor a existência humana, mais humana, menos soberba. Mais humilde, mais gente (já que no mundo que vivo, lido com tantos "Deuses" e suas togas).