27 de jul. de 2012

Casal


Por Geraldo Lima

– Estou pronto para morrer, ele disse com uma voz que já trazia em si a ruína e o silêncio.

Ela abriu a veneziana, como se cavasse uma fuga, e um vento frio a fez encolher-se um pouco mais para dentro do roupão. Um casal de pássaros, num voo-relâmpago, passou rente à janela. Parecia se pegar em pleno voo, ora quase tocando o chão, ora erguendo-se rumo às nuvens. Talvez os dois estivessem se acasalando, e aquela violência toda fosse só o modo de explicitar o desejo.

Durou poucos segundos esse balé desvairado, o suficiente, no entanto, para arrebatá-la. O suficiente para arrancá-la dali, daquele ambiente de falência múltipla. Assim que os pássaros sumiram mais adiante, em meio à copa dos abacateiros, ela foi sugada de novo para dentro dessa realidade prestes a se decompor.  

– Estou pronto para morrer, ele repetiu, como se estivesse enfiando um prego na mente dela.

Ela fechou a veneziana e foi até o quarto. Abriu a gaveta da cômoda e do meio das roupas tirou um objeto que lhe provocou calafrios. Deu vontade de sentir de novo o vento frio na cara antes que tudo ruísse diante dos seus olhos.

2 comentários:

Fernando Rocha disse...

O espelho, alguns prontos para a morte outros tentam evitar o desespero.

Anônimo disse...

"Saí pra lá, José". Torci muito pra ela dizer isso...

Muito bom, desesperador...