25 de jul. de 2012

As sombras de Nirvano

Por Nilto Maciel

Nunca prestei atenção à sombra de meu corpo. Devo ser um homem normal. Quando menino, à noite, brincava de fazer sombras na parede, com as mãos, à luz da lâmpada. Imitava pássaros e cabeças de animais. Como qualquer pessoa, logo deixei de lado esse passatempo e só voltei a ele quando meus filhos nasceram. Vamos brincar com sombras. Como é, pai? Aproximava-me da parede e iniciava a brincadeira. Faz um papagaio. Eles riam.

Dia desses mandei revelar umas fotos e, antes de mostrá-las a Luciana e aos meninos, me pus a examiná-las. Cara de pai feliz, roupa de palhaço. Brincadeira em casa, para alegrar as crianças. Numa das fotos, no entanto, havia uma sombra estranha. Apurei a vista: ao meu lado, no chão, se estendia um vulto esquisito, a lembrar um cachorro. Quatro patas, focinho proeminente. Só faltava latir. Achei aquilo espantoso e escondi a foto. De onde surgira o animal? Não recordo de ter visto nenhum cão ao meu lado no momento da fotografia. Nem poderia recordar, pois não crio cachorro. Como, então, apareciam aqueles contornos caninos aos meus pés? E a minha sombra, a do meu corpo humano, onde se achava? Não mostrei a foto a Luciana nem a nossos filhos. A ninguém. Tive vontade de rasgá-la. Com medo de ser acusado disso e daquilo. Poderiam me chamar de bruxo ou sei lá do quê.

Um dia, estando só em casa, fui ao jardim e fitei a vista no Sol. Eram quatro horas da tarde. A mancha de meu corpo se estendia pela grama e se confundia com as roseiras. E vi um desenho terrível, como o de um rinoceronte extasiado. Teríamos no jardim alguma estátua? As formas de uma roseira poderiam dar a ideia de um animal?

Quando ia ao centro da cidade, metia-me na multidão, para disfarçar as reproduções das linhas de meu corpo em movimento. Olhava para o lado ou para frente, cheio de curiosidade. Se, porventura, alguém ao meu lado ou às minhas costas visse aquelas figuras torpes, aquelas aberrações, aquelas criaturas desconexas, talvez não prestasse atenção a elas. Mas, se algum curioso percebesse no chão um desenho extravagante, o que seria de mim? Poderia me seguir, fotografar as manchas de meu corpo no chão. Certamente eu estaria perdido, se o sujeito levasse as fotos ao serviço secreto ou à cúria.

Em casa, acesas as lâmpadas, evitava andar diante de minha mulher e das crianças. No chão ou na parede surgiriam figuras geométricas absurdas. Cansei de ver mesinhas com cabeças de porco. Luciana talvez não reparasse nisso, olhos grudados na televisão. Bruninha, sentada no meu colo, sonolenta ou saltitante, não se importaria com os sapos, os gaviões e as raposas que se aninhavam aos meus pés ou às minhas costas. Uma noite me assustou: paizinho, você tem medo de corvo? E se meteu em meus olhos. Eu não poderia mentir para ela. Nunca menti. Se a ave for muito grande e ameaçadora (e fiz imitação de um corvo medonho, a voar e grasnar), sentirei muito medo e me esconderei atrás de uma árvore. E se não houver árvore por perto? Correrei para o quarto e me enfiarei debaixo da cama. Ela parece ter entendido tudo, pois se agarrou a mim e disse: não tenha medo, o corvo vai já desaparecer. E sumiu mesmo. No chão havia apenas a sombra de uma menina agarrada ao pescoço do pai.

Em outra ocasião, cheguei à sala e vi aos meus pés um sapo. Tratei de me sentar logo no sofá, ao lado de Luciana. Pois a danadinha da Bruna se ergueu (brincava com bonecas a um canto da sala) e se pôs a pular como um batráquio, perninhas encolhidas, mãos no chão. E gritava: olha, papai, olha, mamãe, eu sei imitar uma perereca. Dei um grito de pavor e minha mulher quase perdeu os sentidos. Nirvano, você está doido? Veja esse monstro (a reportagem mostrava um homem sem camisa, algemado, cercado de policiais, acusado da morte de um velhinho). Matem-no, matem-no! Eu gritava, possesso. Bruninha continuava a pular e a me irritar.

Passei a conduzir objetos, para ocultar minha suposta aparência de bicho. Primeiro comprei um chapéu de abas largas. Ao chegar à casa, Luciana tomou um susto. Nirvano, onde você arranjou isso? Comprei numa chapelaria. Para quê? Para me livrar do sol.

A reprodução de meus contornos se tornou mais tosca ainda. Depois comprei um sobretudo, que carregava no braço ou no pescoço. Com esse calor todo, essa roupa pesada não lhe fará bem. Propus irmos morar numa cidade onde todo dia chovesse. Luciana se irritou mais uma vez. Jamais iria morar numa cidade onde o sol não brilhasse todo dia. Adorava calor, praia. Não deixaria Fortaleza nem por Paris.

De chapéu, sobretudo enroscado ao pescoço, calças largas, bengala ou guarda-chuva, eu andava pelas ruas a ver orangotangos, gorilas, girafas, os mais selvagens bichos. Algumas pessoas riam baixinho. Outras paravam, quando por mim passavam. Certa vez também parei na calçada. Um rapazinho gaiato me encarou com ares de deboche. Ele se tinha postado a cinco ou seis metros de mim. Franzi a testa, empertiguei-me e fiz menção de persegui-lo, bengala em punho. Ele correu, apavorado.

Tenho estado ranzinza em casa. Exijo escuridão completa no cômodo onde eu estiver. Nada de lâmpadas acesas. Ando com os olhos a arder. Além disso, para que gastar tanto? Luciana se irrita. Vá ao oftalmologista. Adora claridade. As crianças não aceitam brincar no escuro. Então corram para seus quartos. Lá podem brincar à vontade.

Ultimamente os animais têm dado lugar a seres imaginários, mitológicos. Minhas sombras não são mais imitações de cavalos, leões ou águias. Dia desses passaram por mim uma senhora e uma criança. Ouvi a vozinha dizer: mãe, no chão tem um anjinho. Mirei os meus pés: era verdade, um anjo torto andava ao meu lado.

 * Este é o nono conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

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