6 de jun. de 2012

A puta - IV

Por Marcia Barbieri

A vastidão é triste vista de longe – buraco-ruína de dente. Cachorro morto de asfalto. ?Quantos cachorros agonizantes já chutou na porta de casa? Esparrame o pranto no umbral. O poeta inventou o riso para se redimir dos seus suicídios. Esquecer os cadáveres frescos que traz no dorso. O sol parte todos os dias atrás das suas costas. ?Quantos poentes podem suportar suas vértebras? Atrás de mim sempre é ontem. Morri trezentas vezes e trezentas vezes me levantei. Quebraram todas as minhas pernas de pau. Rasparam minha carne, sugaram todo meu tutano. Arrancaram meus molares com alicate. Me recomponho feito lagartixa branca de parede. Lagarto amarelo antes da criação. Fóssil fajuto dos meus ancestrais. Deus é só uma abstração, um coro grego sussurrou no meu ouvido são. Poucas coisas permaneceram intactas depois do nascimento, depois que o embrião cresceu retorceu, cuspiu no útero. Tragicômica as chacinas de criança. A guerra é um método menos perverso de controle de natalidade, afirmam. Matam mães e pais em potencial. Sem foda não há cria. Irmãos comeram irmãos e se inventou o incesto. Irmãos deceparam as cabeças de irmãos e se inventou o homicídio. Quebraram os dentes e se inventou o riso. Em sociedades primitivas a guerra é menos necessária. Pratica-se o infanticídio. Crianças são jogadas do colo materno ou esquecidas sem alimentos.  Aqui também tudo está voltando ao tempo mítico. Perdemos tudo. A população se reduziu a quase nada. Os poucos que ficaram resolveram se dispersar, quando menos gente por quilômetro quadrado, mais fácil sobreviver, os alimentos demoram mais a terminar. Ainda assim eu resolvi ficar com o que sobrou da minha família, ou seja, minha mãe e tentar reconstruir a vida. Não temos mais casas confortáveis, tecnologia ou comida. Voltamos a condição de meros coletores e caçadores. E ainda assim a caça é escassa. A terra ficou infértil por causa dos produtos químicos das bombas. Todo o conhecimento adquirido se reduziu a cinzas e os avanços médicos, bem, acabaram morrendo com os últimos doutores. Temos apenas um médico, ele foi um dos sobreviventes, mas por ironia do destino, ele pertencia a uma família nobre, seu diploma foi comprado, seus pais faziam questão que ele fosse um doutor, porém, ele jamais se interessou por medicina. Ele tinha tudo que queria, não precisava trabalhar e por isso ficava o dia todo lendo livros eróticos. Era doutor só na placa. Também sou uma das poucas sobreviventes e por um motivo inexplicável estou viva a mais de cem anos, embora não aparente mais que quarenta. Minha mãe voltou a ter o prestígio de antes. Nos tempos modernos ninguém mais dava a mínima para uma curandeira ou uma xamã. Na parede de barro se estende dois metros de garrafas com ervas dentro, são plantas e raízes de todas as cores e tamanhos. Minha mãe conseguiu recuperar uma raiz de mandrágora no meio da ruína, graças a ela agora podemos usufruir do poder desse alucinógeno e como todos sobreviveriam ao passado sem entorpecer¿ Era necessário uma distração para nossos sofrimentos. Eu gostava de olhar a mandrágora se desenvolvendo dentro do pote, seus membros se esparramando na transparência da água, parecia um líquido amniótico, qualquer coisa poderia nascer dali, um monstro horrendo, um demente ou uma criança inocente, no entanto, nunca acreditei na inocência, nada bom poderia nascer de forma tão explícita, mostrar os órgãos se constituindo de forma tão obscena. Era como ver um feto crescendo dentro de uma garrafa de vidro. Mãe gostava de contar a história de um menino calado, um menino gordo, esverdeado e mudo, ninguém sabia ao certo a origem dele, mas todos desconfiavam, alguns dizem terem visto como ele apareceu. Afirmavam que ele era uma mandrágora, mas que foi se desenvolvendo tanto e tanto que acabou por encarnar e criar alma.

Um comentário:

Fernando Rocha disse...

A divagação da personagem traça um paralelo com conceitos de Kropotkin, ele escreveu em alguns textos que a barbárie da sociedade é tamanha que se apropria de leis de sociedades primitivas.