7 de jun. de 2012

Costureira de Malditos

Por Daniel Lopes

São Paulo,
Mancha de batom no colarinho dos executivos
São Paulo,
Cafetina de Avenidas tão prostituídas
Augustas e Paulistas em tumbas tão angelicais
São Paulo,
Que esconde negros tão transparentes no fundo do quintal
São Paulo, colo caloroso de bichas ricas
Carrasca cruel de bichas pobres
São Paulo,
teu concreto te fez menos Brasil
Aqui as crianças não são felizes
São Paulo,
com teus meninos de rua
teus cachorros de rua
tuas mulheres de rua
teus homens de rua
Existe luz pra fora dos teus túneis?
És generosa, mas só para aqueles que aceitam tuas mentiras
Os que não se vendem, nem podem nascer
Pelas rugas da tua face correm lágrimas dos teus rios de esgoto
São Paulo da arte-politiqueira
Da vida-politiqueira
Da imprensa-politiqueira
São Paulo-Itaquera
São Paulo-São MIguel
São Paulo-Guaianases
São Paulo-Itaim
Nova Iorque periférica
Será que não percebes quanto é ridícula tua diversidade comprada em lojas de butique?
Um dia, o menino de tênis bamba foi visitar o museu numa excursão da escola e escreveu na última página do caderno:
- Um dia ainda te conquisto!
O que você fez do menino, São Paulo?
São Paulo com teus bancos, bancários e banqueiros
São Paulo com tuas luzes e carros
Movimento que não é mudança
Herança que não muda de mãos
Queria tanto teu colo
Mas teu verde é muito longe de casa
São Paulo e teus poetas de plástico
São Paulo e teus rappers de plástico... teus Rockers de plástico
Teu samba pra inglês ver
Enfia esse teu papo progressista no rabo
Aqui tudo é público e obscuro
Conheço teus comentários sinistros na calada da noite
São Paulo,
Teus filhos crescem, casam e morrem sem nascer
Não existe vida, só trabalho
Moloch dos trópicos
Auschwitz tupiniquim
Seio de silicone
Xuxa xorando na tv
Futebol sem fim
Black label e bagaceira (Pinga com cobra)
Dentes brancos e boca banguela
Folha e facebook
Estocolmo e Luanda no mesmo país
São Paulo revisited:
"Nada me dais
nada me tirais
nada me sois que eu me sinta"
Ainda assim,
Sem São Paulo,
O meu dono é a solidão.


* Poema feito para o Facebook. A ideia era que, se você clicasse em cada Paulo de São Paulo, surgiria o link de um amigo.

4 comentários:

Paulo Laurindo disse...

São Paulo, minha Maria/Minha malandra Amélia/Essa relação de amor e ódio/Ainda vai fazer mim/Um elo perdido na Consolação.

Fernando Rocha disse...

Seu Brado é um uivo com a mesma energia do proferido pelo Ginsberg.
Acredito que você conseguiu construir uma bela síntese da São Paulo percebida por aqueles que a veem, mas não sentem seus benefícios vendidos pelos comprados.

Geraldo Lima disse...

Ia falar exatamente dessa relação estreita do seu poema com a poética 'Beat'. O brado aí é no mesmo tom do 'Uivo' de Ginsberg. Belo texto, meu caro!

Anônimo disse...

Puxa vida! Valeram os comentários, amigos.
Abração,
Daniel Lopes