5 de jun. de 2012

Ampulheta amarela


Por Munique Duarte

Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. A areia fina passou pelo buraco estreito correndo com pernas inacreditáveis. O grisalho apareceu ali e depois. Dentro da cabeça ainda um resto de novas tentativas. Faria tudo outra vez. Ou não. Cada um sabe o que lhe cabe dentro das memórias encardidas. No meio da selva inteira havia resto de compaixão. Um olhar mais fundo, mergulhador sem pés-de-pato.

Cada centímetro da sala, do quarto, da cozinha, da casa inteira já havia sido percorrido em noite em claro. Tentativas inúmeras. Mãos na maçaneta. Mãos à obra. Sair com a roupa de sempre, cruzar a rua e fumar uma porcaria qualquer. Depois, ler de longe as manchetes salobras dos sensacionalistas. Daí, um café sem palavras óbvias sobre sóis ou temporais. Caminhar mais, mais longe, mais fundo, mais depois de quatro ou cinco esquinas. Sentir os pés querendo sentido contrário. Sentindo o coração querendo sentido contrário. Sabe que a mente não fará o contrário. Pedaços de rotina com pedaços de realidade. Realidade chata, necessária, ampla, morna.

Cruzou a última rua sobre o chão zebrado e bem na frente comprou duas dúzias de uma flor amarela que esqueceu o nome logo após ter perguntado. Era preciso salvar o dia, os amores, a azia, os temores. Calado. Voltou e fez o mesmo caminho. Nada de café, fumos ou jornais. Cumprimento rápido pela vizinha de olho vazado. Triste a vida daqueles que a vivem pela metade.

Flores amarelas sobre a fronha amarelada. Sonhos amarelados. Paredes amareladas. Justificativas amareladas. O amarelo tomou a casa inteira por um instante depois de tanto cinza nos cabelos. Dias, dias, mais dias. Mais areia passando pela cintura da ampulheta em forma. Mais dias, dias, dias. Flores amarelas se tornaram cinza-tempo. Tudo ficou de uma cor só. Em vão. Fora do tempo. O homem só acertará o tempo quando se transportar para dentro da ampulheta e sentir a areia inundando seus pés imundos de realidade.

Tarde demais. A fronha apodreceu e dali em diante a esquina inteira da rua perdida. Tarde demais para outras cores, outros vícios, outros entrementes. Tropeçando. Fim da escada.

Muitas areias depois ele ainda a viu do outro lado da cidade, de vestido azul e presilha no cabelo. Ela estava muito mudada. Rosto mudado. Boca mudada. Perdeu a olhos vistos a cintura de ampulheta. Tão diferente. Tão sem forma. Tão sem a forma do tempo, de corpo de miss. Sentiu-se fora de realidade chata.
 
Foi ao lugar de sempre tomar café, e aceitou o bate-papo óbvio. Estava tudo tão estranho. O cinza da vida já não incomodava. Era o começo de uma nova fé. De novos estalos mentais. Tarde demais. Ou não.

Quer voltar logo para a casa. Tirar o cheiro de mofo do ar. Se jogar em novos jogos, novas ampulhetas. Os pés ardem há tempos sobre essa areia fina, amarelada, acinzentada, mal vestida e mal falada.

Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista responsável pelas publicações de quatro sindicatos de Juiz de Fora-MG. Bloga em http://textosimperdoaveis.blogspot.com. Participa da obra Escritos de Amor, lançada pela Casa do Novo Autor Editora, e Poesia e Prosa no Rio de Janeiro, pela Taba Cultural. Já colaborou n'O BULE, Sobrecapa Literal, Escrita Criativa (Portugal), Revista Diversos Afins, Jornal Opção, Jornal Relevo, Revista Elis, Revista Pâncreas e Revista O Viés. Admiradora de Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles e Ferreira Gullar.

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