22 de mai. de 2012

A última mulher

Por Daniel Lopes

Para Martin Heidegger 

“As lágrimas de alegria que os mortos derramam pelo primeiro que não mais morre.”
Elias Canetti

No ventre da última mulher
Um óvulo sonha inútil
[Os homens já não são]
A última mulher pinta as unhas para o fim
& se maquia só para a morte
Não mais silêncios ante o Absurdo
Não mais desesperos ao pôr do sol
Não mais a morte devorando a vida que torna a nascer sem cessar

(Há um lago e o silêncio das águas)

A última mulher carrega o vácuo nas algibeiras
& fura os olhos de Deus
A última mulher assassina a própria morte com seu óvulo infecundo
& trava a roda do devir
Sobre a face das águas flutuam inúteis
Um piano branco
            Um exemplar da Odisséia
                         Um par de luvas de boxe
                                 Um pincel que pertencera a Paul Cézanne
A última mulher povoa a Possibilidade
& tranca
Com seus imensos cadeados
A porta de abertura do Ser.

6 comentários:

Anônimo disse...

A poesia enfiando o dedo na morte. Ótimo!
Gláuber Soares

lisa disse...

A vingança de Gaya!

Anônimo disse...

Parabéns Daniel!
Faz refletir, sair do lugar ...
O que haverá depois do fim ...?

Paulo Irineu

Fernando Rocha disse...

Imagens impactantes, síntese do nosso cotidiano.
Me lembro do Sófocles, talvez, fosse melhor não ter nascido.

Anônimo disse...

Maravilhoso.

pianistaboxeador21 disse...

Agradeço à leitura e aos comentários generosos.
Valeu mesmo.
Daniel Lopes