27 de mai. de 2012

A ponte


Por Geraldo Lima

A rajada de vento apanhou a folha de papel jogada sobre a ponte e a transportou numa viagem desengonçada por sobre as águas do rio. A mulher acompanhou a trajetória da folha até não avistá-la mais, talvez tenha caído na água e se dissolvido toda, pensou. E no mesmo instante desejou ser aquela folha de papel e ser arrastada pelo vento. Ser, enfim, arremessada contra uma superfície sólida ou líquida e desaparecer inteira.

Quando pequena, ela já sentia a vertigem de se imaginar jogando ali do alto da ponte. O corpo, como um tronco de árvore podre, flutuava por alguns instantes e depois era arrastado violentamente pela força da gravidade. Sua imaginação febril agia com tanta perfeição que ela podia ouvir o som da água se esparramando toda em ondas concêntricas assim que o corpo a tocava.

Uma árvore de tronco podre, é assim que se sente agora. E está prestes a romper com as raízes e tombar no vazio. Só espera a próxima rajada de vento colhê-la sem aviso e delicadeza.

10 comentários:

Glauber Vieira disse...

Gostei, acho que mostrou com acerto as reflexões de uma pessoa que pensa em suicídio.

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Glauber. Um abração

Geraldo Lima

maria joão moreira disse...

um texto triste e entristecedor mas, ainda assim, muito bonito. parabéns!

Tita disse...

Caro Geraldo. Tenho lido os textos d'O Bule e este seu me chamou a atenção pela elaboração requintada do texto e pela criatividade. Dificil encontrar quem escreva bem como você e q ao memo tempo, consiga fazer da leitura uma coisa leve e gostosa. Não li outros textos seus mas vou procurar.
Abraço,
Cristina ancona lopez

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Maria, pelo comentário.

Um abração
Geraldo lima

Geraldo Lima disse...

Oh, Cristina, esse seu comentário me deixou bastante animado.São palavras assim que nos fazem continuar na luta. Querendo, pode acessar o meu blog BAQUE www.baque-blogdogeraldolima.blogspot.com

Um abração
Geraldo Lima

Christiane Angelotti disse...

Geraldão sempre impecável!

Geraldo Lima disse...

Obrigado, Chris!!

Anônimo disse...

Quantos pensamentos povoam a mente de alguém parado na borda, seja da ponte, seja da vida?
Belo texto.

Geraldo Lima disse...

De fato, Ceres, parece-me que estamos sempre calculando o salto, o risco... A borda de tudo é sempre o nosso limite. Valeu pelo comentário!