2 de mai. de 2012

O bairro acordou mudado...


Por Ricardo Novais

No meu bairro estão caindo as casas velhas e brotando prédios moços. Meu bairro acordou trocado. As árvores deram lugar ao cimento cru e ao asfalto cinza-escuro – cor do céu da cidade. A chuva não é mais bem-vinda como antes, arrasa a família do dono da padaria e a escola das crianças. O sol, tão esperado nesta terra, teima em queimar os sonhos daqueles que dormem nas calçadas – calçadas estas que viraram ruas de comércios.

Não me conformo. Derrubaram o meu bar e no lugar botaram uma locadora de automóveis... Para que tanto carro nesta cidade, meu Deus?! As moças da noite saíram das esquinas porque os bulevares agora são das festas da prefeitura... Que será de minhas amigas, meu Deus?!

Em busca do ouro, o pároco da capela levantou-se, fez breve discurso e pediu que bebêssemos um brinde à felicidade do bairro. Ao progresso! Aos novos prédios! Às novas casas de negócios! Ao profeta Abraão!

Ora, caro leitor; mas tenho saudade de quando os meus vizinhos garimpavam o futuro debaixo do pé de acerola que ficava na praça do arrabalde ou em jogos de cartas e dominó no bar da Dona Portuguesa. Ser feliz era mais simples no tempo de outrora... Apenas a velha capela, restaurada, mas próxima da original, sobrou como testemunha da vida e da época de nossos primeiros erros.

2 comentários:

Rovana disse...

Gostei do texto. Ao lê-lo, minha memória também trouxe à tona lembranças de várias fases da vida. Acredito que ser feliz realmente era algo mais simples. Hoje, muitas pessoas atrelam a felicidade ao ter, e não mais ao ser. Tínhamos menos do que hoje, e no entanto, éramos mais intensos do que hoje nas relações de modo geral. Texto muito legal, sugere muitas reflexões!

Ricardo Novais disse...

Tua reflexão que me parece apropriada, querida Rovana.

Obrigado pela visita; seja sempre bem-vinda.