31 de mai. de 2012

Diante da própria ansiedade (ou jogando pipoca aos pombos)


 Por Tony Roberson de Mello Rodrigues


Estou jogando pipoca aos pombos. Vejam. Praticar o amor às vezes é silenciar diante da própria ansiedade.

É mesmo?

Preciso achar meu verdadeiro lugar no mundo ou aprender a não me insatisfazer tanto com os lugares que ocupo? Sou um eterno insatisfeito sim, há muito tempo consciente de que nasceu para ir apodrecendo ao longo do caminho. E não é porque minha raiva alimenta doenças que sua anulação me trará curas. A anulação de minha raiva, de minha irritação, de minha náusea tra(i)rá curas.

Como fazer de meu quarto muito mais um ninho para autoacolher-me que uma prisão para autoenterrar-me cada vez mais? Não deve ser à toa, nem deve ser por timidez ou preguiça que meu espírito me direciona a isso. Assim como o otimista não é ingênuo, o insatisfeito não é burro. Eu ando é cansado de ser pedra a rolar em meu infindável caminho.

Num mundo tão mesquinho, a indiferença pode ser uma forma de solidariedade não confessada? Tem  muita coisa que não presta. Que não presta para. Que não se presta a. E se disfarça de indiferença.

Se você faz algo certo, não deve esperar reconhecimento. Se erra, deve se preparar para críticas e até indelicadezas. Se faz além do que lhe pedem, geralmente é apenas nos momentos em que erra que perceberão que você foi além, e virão atrás de você para cobrar justificativas.

Não é porque eu acredito na frase "rir de tudo é desespero" que eu vou deixar de rir quando, muitas vezes, estiver desesperado, e muito menos deixar de me desesperar.

Não é porque a tristeza muitas vezes "afasta" as pessoas que eu vou deixar de me apropriar do que sinto, e às vezes compartilhar isso. Eu quero tirar a casca do machucado, enfiar o dedo, a mão, o braço, reenfiar-me por dentro da ferida e elevar a dor a tal ponto que ela me proporcione algum maldito prazer, alguma desgraçada paz.

Afinal, praticar o amor às vezes é silenciar diante da própria ansiedade... não é mesmo?

Às vezes sim, para evitar um rumo literário ao que lateja de mais podre nas minhas veias.

Acabou-se a pipoca, voltem para seus ninhos.


Tony R. M. Rodrigues é bacharelando em Letras, autor de Lágrimas Lapidadas (1998) e verso que te quero povo (2003) – download grátis no site Recanto das Letras –, coautor de Jovens poetas da ETFSC (1999). Mantém o grupo Tratamento textual, no Facebook, e o blog Rascunhos do meio. Revisor freelancer.

Um comentário:

Dani Gandra disse...

Adoro textos assim... reflexivos, complexos diante da notoriedade humana e, ao mesmo tempo, tão comum a todos nós, mesmo aos mais afortunados... O Tony está de parabéns, mas gostaria de maior esclarecimento quanto a antepenúltima linha com relação ao texto.
Grata. Abraços.