25 de mai. de 2012

Dez libras esterlinas

Por Nilto Maciel

Enterraram minha alma na Rua de Matacavalos e na praia da Glória, cercanias de meus sonhos, arredores da infância. Meu corpo descerão à cova funda em algum cantão, para lá de meus olhares. Com ele desaparecerão os idílios de menina, os olhos de ressaca, desvãos de ser. Entregaram-me às frias suíças do senhor abandono, eu sonhadora de ruas infinitas, alamedas de ipês, jardins de nunca mais. Tudo por dez libras esterlinas. Ou porque Ezequiel, o ausente, o renegado, tem os olhos voltados para si mesmo, como Escobar. Ou o mesmo modo de voltar a cabeça e os mesmos gestos das mãos e pés de Escobar.

Aqui nestas paisagens antes vistas somente em livros, revejo o quintal de Matacavalos, o muro em que desenhei meu nome e o de Bentinho, aquela paixão, aquele amor brotado do chão, de nossos pés inquietos, de nossos olhos que viam até o invisível. E por onde andas, meu filho? Por que queres tanto o desconhecido, o insondável, o inatingível, o fim de mundo? Por que não voltamos às praias de nossa cidade? Em teus olhos vejo tempestades que, longe, se aproximam. Vejo fagulhas no horizonte. E lavas de lágrimas nos meus campos.

Tudo vão em mim. Os sonhos de ser mãe, de viver um amor eterno, de ser conduzida em carruagens de ouro – nenhum deles se concretizou. Porque Ezequiel é incompleto para mim. Nasceu, existe, mas é como se tivesse nascido depois de tudo ou existisse além de mim.

Juntei moeda após moeda e as guardei como quem guarda segredos. Sobras do que me dava Bentinho para despesas mensais. Escondi-as com cuidado e medo, como quem oculta pedaços de solidão debaixo do travesseiro. Moedas que nunca se transformaram em riqueza, em ouro, em potes de ouro. Pois elas rolaram num repente, como se vivas fossem, rodaram no rumo do mar, do abismo. Giraram diante de nossos olhos e nada pudemos fazer, nem eu, nem Bento. Rolaram e atrás delas fomos. Primeiro Escobar, em braçadas de náufrago. Entanto, as moedas desciam ao fundo, pelo peso delas, pelo fulgor do sol, pelo calor dos dias. Corremos também eu e Bento, separados, desunidos, como se fosse possível reavê-las, impedir o seu sumiço, em sua inexorável descida ao fundo de nós mesmos. Descaímos para o abismo, atrás daquelas libras esterlinas, e nele afundamos. E tudo se deu aos poucos. Minha queda teve início no dia em que confidenciei a Escobar a vontade de juntar dinheiro e transformá-lo em ouro. Não, minha queda vem de muito antes. Vem do tempo do seminário. Bentinho me falava do novo amigo Escobar. Realçava suas qualidades, como a de saber calcular depressa e bem. Os anos passavam e mais Bento se afeiçoava a Escobar. Quando este se fez negociante de café, Bentinho passou dias e dias a prever riquezas para o amigo. Quando se conheceram, pareceu-me encantado. Falou-me dos olhos, das mãos, dos pés, da fala do outro. Não senti ciúmes, porque estes ele os tinha em profusão. Mais do que apólices no cofre. Além disso, não bastassem os ciúmes, José Dias vivia a lhe encher o espírito de maledicências de mim.

Para que queres ouro, Capitu? Eu me calei. Eu queria muito ouro, como o dos tesouros antigos. Ouro em barras, em joias. Mas como fazer isto sem que Bentinho desconfiasse? Numa das nossas visitas a Escobar e Sanchinha, em Andaraí, aproveitei uma distração de Bento e me refugiei no jardim. Escobar me seguiu. Postei-me atrás de uma árvore. Ele se aproximou, a passo lento, e parou às minhas costas. Senti a sua presença. Não seria a de Bentinho. O cheiro de um e de outro não se confundia. Virei-me. Ele enfiou os olhos nos meus, sorriu. O que eu escondia? Em um instante, disse-lhe tudo. E onde estão as libras, cunhadinha? Ele assim me chamava quase sempre. De Capitu não queria me chamar. Por quê? Marquei encontro em minha casa. Fosse numa hora em que meu marido estivesse ausente. Eu não imaginava outra coisa, senão ouro.

Tive um sonho enigmático há poucos dias. Éramos crianças e brincávamos os três: eu, Bentinho e Escobar. Mas como isto se deu, se não conheci o finado ainda menino? Talvez fosse Ezequiel. Andávamos por um quintal vasto e tenebroso. Havia árvores aqui e ali. Muros não se viam. Eu propunha: vocês ficam aqui e eu irei me esconder. Quem me achar primeiro ganhará um beijo. E dez libras esterlinas. De onde você tirará essas libras? Ora, bobinhos, cada um de vocês me dará cinco libras de faz-de-conta. E corria entre as árvores. Os passarinhos voavam pelos galhos, cantavam, pousavam numa e noutra árvore. Eu parava, não me deixava ver, ouvia passos e novamente corria. Mais adiante me ocultava atrás de uma pedra. E ouvia passos vindos do lado oposto àquele por onde andavam os meninos. Quem estaria ali, além de nós? Súbito via diante de mim enorme serpente: Queres provar o fruto do amor? Ou o da riqueza? Que queres mais, menina? Assustada, eu corria de volta e me deparava com Escobar, que me abraçava e beijava. E atrás dele os olhos de Bentinho me chamavam de pérfida. Empalidecida, eu recuava. Bento, irado, empurrava o outro para as águas do lago. Escobar caía n’água, afogava-se, debatia-se, afundava. Eu gritava: vamos socorrê-lo, ele está se afogando. Bento parecia possesso. Não, não irei salvá-lo. No entanto, Escobar emergia e caminhava até nós. Eu não disse que ele se salvaria? Veja os músculos dele. E apertava o braço de Escobar.

Sonhos como este se repetem com frequência. Estou sempre acusada, acuada, perseguida, humilhada. Fora dos sonhos, vivo de solidão e saudade. Principalmente de Matacavalos e da praia da Glória. O primeiro beijo, o calor que me envolveu durante dias e dias, a sensação de estar a me queimar, como se minha alma se abrasasse.

No último sonho, o de hoje, Bentinho se sentava à beira da cama. Eu agonizava. Ele me confortava: vou te curar. Mas terás de engolir estas dez libras. Escobar se aproximava: o que estás fazendo? Verás. Ao ingerir a primeira, Ezequiel, o filho de vocês, desaparecerá, como se não tivesse nascido. Não será sequer lembrança. Não terá passado de desígnio. Mas tu a matarás com isso. Não, eu não a matarei. Extinguirei, sim, a minha dor. A segunda pílula libertará Capitu do exílio, como se a Suíça não houvesse, como se o vapor que a trouxe até aqui nunca tivesse atracado em porto brasileiro. Devorada a terceira libra, estarás em Catumbi. Não continues, Bentinho, isto é loucura. Loucura é te ver aqui. Vai, assenta-te na tua sege de luxúria, vai passear com as tuas bailarinas, enfeitar de ouro o pescoço delas. Vai, meu comborço. Pois ao deglutir Capitu a quarta libra, tu te matarás no mar. Darás braçadas e mais braçadas, como se buscasses o inacessível, e, cansado, sucumbirás e serás conduzido sem vida à areia. Na quinta dose, estarás no seminário e falarás a mim tuas iniquidades. Consumida a sexta, viveremos, Capitu e eu, dias e noites sem fim e sem princípio. Na sétima falarei de estrelas para Capitu, que olhará para mim como se eu fosse o céu. Ao ingerir a oitava libra, estarei rapaz, serei bonito e Capitu me adorará. Chegada a nona, deixarei o seminário e, livre, buscarei Capitu. Ao introduzir na boca a décima poção, estaremos em Matacavalos, seremos crianças, tu não existirás para nós, eu a beijarei, farei suas tranças, estarei em seus olhos, tragado por eles – mar em que desde sempre estive afogado e para sempre estarei. E seremos como deveríamos ser: eternos.

 * Este é o sétimo conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

Um comentário:

Paulo Laurindo disse...

Sensacional, Nilto. O último paragrafo é simplesmente genial.