30 de mai. de 2012

'Colcha de retalhos', por Rodrigo Domit


Labirinto


Costumava dizer que estava apenas experimentando, abrindo portas.
Algum tempo depois, entre tantas portas, já não sabia mais por qual sair.

Culpa


Quando Ele apareceu, perguntando quem é que havia comido do fruto proibido, todos ficaram desesperados. Adão, que não havia sequer se aproximado da árvore, não pensou duas vezes, apontou o dedo acusador para Eva e disse que havia sido ela.
Os pássaros até hoje assobiam, fazendo-se de desentendidos.


Luto


Regou o túmulo por dias, até secarem os olhos, vermelhos e ásperos.
Uns dizem que foi por compaixão.

Outros sussurram que foi por culpa.

 

Mulher da minha falta de sonhos


Sente o vazio no fundo do travesseiro. Revira-se e estica os braços em busca daquela presença; Uma esperança, nada além disso. Por mais que se deparasse com outro corpo, não seria aquele. Nunca mais foi.
Depois daquela noite, a cama sempre pareceu vazia.

 

Fuga


Bebo para dormir.
E, quem sabe, um dia não acordar.


Lua de Chesire


A lua, deitada no céu, sorri um sorriso minguado.
Ela sabe que, por estas ruas enevoadas, durante a madrugada, encontrará apenas os bêbados e os loucos.

 

Amparo


Na desforra, até ouso blasfemar; Mas, no desespero, rezo fervorosamente.

Quando estou para baixo, ter um santo ajuda.

 

Baile de máscaras


Nenhum dos dois conseguia se envolver, desenvolver confiança, intimidade, cumplicidade, esses detalhes que sustentam um relacionamento. Sabiam que era coisa de uma noite, uma semana, com sorte, um mês.
No entanto, estavam decididos a tentar, vestir as máscaras e ver até onde a mentira os levaria; E levou longe, até que a morte os separou.

 

Esplendor


A sala era divida em quatro blocos, que, por sua vez, eram divididos em quatro cubículos. Apenas a sala do chefe, separada da outra, tinha janelas - que de nada adiantavam, uma vez que não se abriam e que eram cobertas por uma película escura. Aqueles tantos cúbiculos estavam todos ocupados, com exceção de um: discutiu com o chefe e pediu demissão, não aguentava mais.
Dizem que foi porque um dia teve que sair um pouco mais cedo, para levar o filho ao dentista, e, só então, depois de anos, reparou que o mundo não era cinza como na hora em que saia de casa ou na hora em que voltava.
No dia seguinte, com um sorriso reluzente, comentou com os colegas:
- O mundo é amarelo!

 

Fazendo as pazes


Às vezes tenho lá meus desentendimentos com o mundo. Ficamos brigados, ambos emburrados e em silêncio. Ontem mesmo tivemos uma briga feia; O mundo pode ser bem cruel de vez em quando.
Mas ao final da tarde, uma borboleta pousou ao meu lado na rede. Chegou, me olhou e ali ficou, batendo asas como se dançasse. Aceitei as desculpas imediatamente, sem pensar duas vezes.

 

Experiência


Ao pararem em um semáforo, ao lado de uma carroça puxada por um burro, o garoto ficou observando o animal, questionou-se por alguns momentos e decidiu perguntar:
- Vovô, qual o nome desse negócio que tapa a visão dos burros?
Sem nem ter visto o burro, o avô respondeu, com precisão:
- Preconceito, meu querido. Preconceito.

 

Mercado ilógico


Antes de espatifar-se no chão, já era novamente um milionário.

 

Incógnita


Era viciada em reuniões de anônimos.
Na esperança de ser notada, ia a todas. Dos narcóticos aos workaholics, passando por alcoolistas, comedores compulsivos e mulheres que amam demais.
Tudo que ela queria era deixar de ser anônima.


>>> O escritor Rodrigo Domit estará no 3 Cafetel Literário, que ocorrerá no dia 01 (sexta) às 19h, na Cafeteria Vozzuca (Uberlândia-MG). Mais informações AQUI.

Um comentário:

Christiane Angelotti disse...

Gosto da sua escrita, Rodrigo.
Leve, desprentenciosa e muito à vontade. Caracteristicas de quem escreve bem.