1 de abr. de 2012

Três minicontos

Por Fábio de Souza
No instante

... que ficássemos ali, feito agora: meio que à deriva os dois, suspensos no que ainda me parecia o meio do dia num domingo mormacento de brisa quase nenhuma, amenizando nosso cansaço aos pés de uma frondosa sombra, aquela que eu imaginara que amenizasse esse nosso cansaço a certa altura, aguardando o momento seguinte àquela nossa sonolência; a brisa nos lambe a pele com algo de ruína e penso que bom seria não esperar nada mais de meu destino dali em diante, que eu me desatasse dele, assim feito quem abre mão da própria vida. Só penso, porém. A bem da verdade não dizemos nada. Ficamos mudos. E sim, ficaríamos desse modo por um bom pedaço de tempo, com esse ranço de palavras perecendo no silêncio que nutríamos ali no meio do dia num domingo mormacento amenizando nosso cansaço aos pés de uma frondosa sombra e, repito, ficaríamos desse modo por um bom tempo, aliás, um bom pedaço de tempo, aguardaríamos bem ali, naquele pedaço do dia, sem desenlace algum, saboreando o instante, ruminando algo de inspiração que nos arrebatasse dali posteriormente, quem sabe, ali mesmo, onde já quase dormitávamos sob as horas, antevendo nossa morte... Inverno 2009

Estrangeiro

Foi numa tarde feito essa. Atravessei de um lado ao outro do dia como quem vai do céu ao inferno. Fazia calor. No céu nem uma nuvem sequer. Ainda no saguão de desembarque uma voz feminina no sistema de som decretava meu destino. Do aeroporto ao hotel a aridez compunha uma Brasília crua e seca de um mês de agosto. No pesadelo da noite anterior eu morria nessas paragens, velho e só, feito agora; um mal que me levava até a última memória, oco por dentro, para então me deixar minguando sob aquele deserto todo, azul e quente, feito esse, que já me assola o juízo. Piso o cimento, ensaio palavras numa língua que mal sinto o gosto, caminho a passos omissos. Penso o imponderável. Deixo de buscar o endereço horas depois, mais ou menos quando me perdi. Mais ou menos nesse instante, quando resolvi entregar os pontos e ceder. Sim, mais ou menos aí, pois eu já não tinha mais forças para exigir coisa alguma de minha vida àquela altura. De modo que sentei. E esperei, sobre o dorso das horas. Esperei que algo me ocorresse. Uma puta dor no peito...

Estrangeiro II

Ele subia os lances de escadas se perguntando se fazia aquilo de maneira que não parecesse a ação de quem já havia se esgotado de todos os recursos. Tinha muito disso. Lembrou que havia terminado o livro naquela manhã. O esforço de um homem ao chegar num país longe do seu e se dar conta que havia perdido tudo, o passado, o nome, a própria identidade mal refletida no espelho do banheiro. Sentia-se cansado, exaurido do próprio vigor em não parecer aquele seu personagem do livro. Ao ganhar a porta do apartamento, bateu uma, duas, três vezes com os nós dos dedos, chamou um nome, até dar-se conta que estava só agora, que ali dentro não habitava outro havia tempo, só o seu corpo, essa existência calejada. Girou a chave. Fechou a porta atrás de si. E tudo então perdia-se num borrão cinza, feito aquele dia...


Fábio de Souza nasceu em 1987, é contista e reside no Distrito Federal. Tem no prelo o livro de contos A Invenção do Abandono. Aventurou-se, depois de muito ponderar, a manter um blog www.invencaodoabando.blogspot.com. E-mail: fabio.minc@hotmail.com

Um comentário:

Kelly Literatura disse...

Minicontos com o estilo profundo e, ao mesmo tempo, enigmático de Fábio de Souza. Amei!