22 de mar. de 2012

Punhal

Por  Daniel Lopes

Submarino amarelo. É na profundeza escura das águas que se encontram as paixões mais espanholas... Espanha dos meus desejos tão distantes... Submarino amarelo, e a maioria deles não são mais que canoas flutuando na superfície dos afetos. Eu não... eu não me importo de me perder nas profundezas, não sou mesmo como você, que cria o amor como um bicho entre grades. Eu bem sei que eles te rejeitaram. Eu bem sei que você esconde um crisântemo violentado na lapela. Eu bem sei dos preconceitos injetados no teu falo e no teu ânus. Menino de ferro. Liberdade encarcerada dos teus vinte e poucos anos. De onde você se esconde pode ver as estrelas? Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida inteira sem amor. Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida sem poder dar amor. Escondem-se em escafandros e armaduras, mas no cerne do metal implantaram um coração vermelho que pulsa e pulsa. E o que se faz com isso, hein? Escarros... Escarros do peito podre de meu pai fabricando a aurora e todos aqueles tios e primos gritando da margem da manhã que se iniciava:
- Joga ele no meio do rio que é pra aprender a ser homem.
Isso enquanto eu tentava, e pra minha sorte conseguia, sair do meio da correnteza. É doloroso recordar o esperma verde do fundo envolvendo feito membrana a pele dos meus pés. Mas sou forte; e a superação é o trigo com que fabrico o pão cotidiano.
- Eu vou ser homem, mas jamais vou ser um homem como vocês. Falei.
Tudo isso me volta agora. Submarino amarelo dentro de mim. Talvez você não esteja preparado para passar o que as pessoas como nós têm de passar. Talvez você não esteja preparado para o escarro e o estrume. O crime é uma forma de se revoltar contra o que nos oprime por dentro e por fora. Se esse mundo não me quer, eu também não o quero. É isso ou estou errado? Sei que é duro ter de ficar o tempo todo provando que também se é humano. Às vezes cansa. Às vezes dá no saco. Sei que é duro, meu pequeno, entretanto, esqueça um pouco o mundo e sua dor, enquanto mergulha todas essas angústias que você leva por dentro no meu corpo gordo. É fato que jamais seremos felizes. É fato que nos tornaremos alcoólatras... Drogados... Criminosos. É fato que o amor não vai nos salvar nesta terra. Deixa, porém, isso tudo de lado nestes poucos minutos em que criamos a nossa fantasia de amor e brindamos o que sentimos sem champagne, mas inebriados de pinga de cadeia. Submarino amarelo. Forever.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que belo texto! Cortante que nem o Punhal.
Gláuber Soares