27 de fev. de 2012

Sangue

Por Geraldo Lima
 
Tantos anos de amizade, e só agora a coisa se revelara. Por quantas vezes já estivera prestes a se libertar da masmorra da consciência? Que resquícios de virtude ainda a prendiam na teia de neurônios? 

Agora já estava dito. Culpa da embriaguez? Cegueira e estupidez causadas pela ira? Ou o vírus já estava incubado todo esse tempo lá no âmago, aguardando apenas um motivo para vir à tona? Estava dito. O outro recuou espantado: Não tô te reconhecendo, cara. Você não pode repetir isso. Mas o outro repetiu: uma, duas, três vezes, assim, na bucha.

Os dois, durante anos, dividindo a calçada, a cerveja, a solidão e as trevas. Agora...

 Não deveria ter dito isso, não assim nesse estado, nesse momento; não desse modo, com esse tom de voz, com essas palavras: palavras são armas fatais, meu amigo. E a arma branca, nas mãos negras, brandida com fúria, retalhando o ar.

Do livro de minicontos Tesselário, Selo 3 x 4, Editora Multifoco.

Um comentário:

pianistaboxeador21 disse...

Tem a densidade, a força e a violência de um poema:
"palavras são armas fatais, meu amigo. E a arma branca, nas mãos negras, brandida com fúria, retalhando o ar."
Certeiro, Geraldo. Perfeito.