19 de fev. de 2012

Quatro poemas de Muna Ahmad Yousef


Gitano

Amor não é um galo
arrepiado, cego
cantando no sereno
O amor se desfaz
das embalagens descartáveis
mas deixa o copo de veneno
Amor não é mel
de abelha rara
nem é fel
nem tapa na cara
cavalo correndo com o vento
água correndo pra ver o mar.
                                                                           1987

 Conjugal

Tinha ar de geladeira vazia
deixava de manhã cabelos caídos na pia
bordando o branco de nossa convivência.
A solidão dos planetas
a dissolução dos amores
o silêncio da madrugada
a notícia do jornal.

                                                                              1987
Quaresma

Guardei as fantasias
lavei a casa
abri a alma
fiz novos canteiros
semeei papoulas e dálias
Cortei os cabelos
comprei lanternas e lupas
fiquei nua na janela
olhos postos no céu
no fundo de mim
passa um rio
onde adolescentes de seios duros
e bocas ruidosas banham-se de manhã.

                                                                                  1995

 Do esquecimento

Sapatos pisam fundo nos dias
Tardes desiguais:
tem as de vento
que fazem carnaval nas saias da gente.
Tem as que escurecem rápido
como coito de alguns animais.
Tardes quentes
banais
cada beduíno em seu pedaço de deserto.
                                                                                 1997

Muna Ahmad Yousef é poeta e professora. Mora no DF e trabalha na Estação Ecológica  Águas Emendadas. Os poemas publicados aqui fazem parte do livro inédito Da boca pra fora.   

4 comentários:

Carmen Regina Dias disse...

Sou fã, adorei, me senti em casa,
me senti sendo ela, Yousef, a poeta.
Adorei a água correndo pro mar,
sim, porque eu também sei o sonho
do rio.
E também sei o sonho do mar.

Gostei muito de a ler, professora.
Pelo blog de Luis, das Egrégoras.

Deixo abraços.

Evando F. Lopes disse...

Sou suspeito pois trabalho também em Águas Emendadas, junto com Muna, mas, que é lindo, é!

João Batista Acauã disse...

Oi Muna! Adorei! Os poemas são muito bons! Falam por si e dispensam comentários! Acauã Jota Bê.

paulo kauim disse...

muna
é
poesia
no
volume
máximo


axé