18 de fev. de 2012

É batata que a pequena é espeto

Por Claudio Rosa

Sentavam as três, a avó, a mãe e a filha sempre no mesmo lugar na igreja para missa das dez horas do domingo, na saída lá iam as três na mesma ordem pedir a bênção do padre e tornavam a casa. Era assim semana após semana, dia após dia.
Em casa era sagrado o bolo de fubá na quarta-feira e o bolinho de chuva da sexta-feira feitos pela avó.
A mãe era costureira de roupas e de vida alheia, mas só o era para as amigas.
A filha , exemplo, educada, formosa, recatada com futuro brilhante.
A bisa havia ensinado tudo direitinho.
Numa dessas sextas de bolinho de chuva fazia um calor daqueles e de repente como não de surpresa caiu aquele pé d'água no finzinho da tarde e a missa não foi mais a mesma.
Ela tocou a campainha e coitada estava molhada dos pés aos seus vinte e poucos, desde a calça jeans à camiseta branca e era impossível não notar que estava sem sutiã.
A avó não demorou em pedir que ela entrasse e de apresentá-la, era ela prima, de segundo grau, que morava na capital. Foi um beijo no rosto sem jeito dado pela mãe e em troca dois beijos aconchegantes da convidada, da filha foi um beijo tímido e em troca dois beijos e um abraço apertado da prima distante.
E elas assim ficaram paradas na sala em frente à porta por quase cinco minutos até a avó levá-la para o quarto em que ela ficaria.
Como de costume ela não dava explicação de nada e assim foi desta vez.
No sábado foram juntas as três mostrar a cidade para ela, e a cidade não fez por menos e todos saíram para vê-la.
Dia longo e cansativo e ao chegar em casa ela só conseguiu dizer:
- Preciso de um banho!
Jantaram.
Dormiram.
Acordaram e era domingo e ela não tinha roupa para igreja e a avó pediu para a filha emprestar uma de suas roupas para ela.
No quarto.
Caladas.
A filha, tímida, abriu o guarda-roupa e começou a escolher o que podia emprestar e pegou o vestido longo preto, como o seu, e passou para as mãos dela que sem querer tocou nas pontas dos dedos dela, para uma fuga rápida da filha.
Ela notou, claro, agradeceu com um sorrisinho e tirou a roupa para colocar o vestido.
Silêncio.
Batem na porta.
-Vão na frente que ainda não escolhemos a roupa. Ela respondeu.
A mãe quis esperar, a avó preferiu ir na frente.
Na igreja, as duas esperaram quinze, vinte, a missa toda e nem pediram direito a bênção do padre e voltaram.
em casa chegando a comida estava pronta a filha esperava de cabelo molhado do banho com ela sentada ao seu lado a mesa

Claudio Rosa  é um cara na casa dos 30, paulistano, escritor, roteirista, tradutor e dramaturgo. Teve textos publicados no livro Dedic. Escreve contos, poesias e crônicas no jornal RelevO. Bloga no O Número 8, é cofundador e colunista do coletivo Texto de Garagem. E, para terminar, é amante do bom cinema e do bom futebol, mesmo que ambos sejam coisas raras hoje em dia.

Um comentário:

Anônimo disse...

A vida religiosa tem seus costumes. Gostei!

Abraços.
Patrícia Valle