2 de dez. de 2011

O mendigo


Por Ricardo Novais

A coisa mais extraordinária eu assisti na calçada da praça do centro. Um mendigo estrebuchava, tossia e ria; de um riso débil e constrangedor. Toda a gente estava ali, em plateia burlesca e sorridente, mas as pessoas paravam rapidamente, apressadas que são pelas tarefas cotidianas da indiferença humana. O sol, já alto entre arranha-céus, espantou a garoa e fervia incolor a lama que servia de esquife ao moribundo. A cidade, tão grande e até generosa, deu-lhe de esmola esplêndido leito de morte.

Rudes bocas maledicentes que circundavam o pobre projeto de cadáver iniciaram um burburinho, a saber:

- Que tem ele?

- É cachaça! – gritou uma calça risca-de-giz.

- É droga! – retrucou um par de ancas de vestido curto.

O mendigo morria sem fazer ruído na frente da multidão alegre e desorganizada. A morte, a um canto, aguardava-o calma e absoluta. Eu, ao mesmo tempo testemunha e personagem, assistia a todo o espetáculo numa mistura de incredulidade e satisfação. Não julgue à toa, leitor! Há um segredo pungente. De certo que sabe o grande prazer que dá estar livre do perigo exposto a outrem; ai de mim, de ti, de nós; desgraça, só a alheia.

2 comentários:

Maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria disse...

"A gente se acostuma, mas não devia". Nos acostumamos com tanta coisa para ainda nos considerarmos humanos. Que seu sarcasmo consiga provocar a indignação necessária ao SER humano.