5 de dez. de 2011

Um poema de Márcio-André

Por Márcio-André

aqui do estômago desta baleia
a cidade é um cardume cintilante
e
a estátua de Drummond tem as costas ao oceano –
[as estátuas são para os homens  não para o mar]
cultivar um peixe por dentro
para um dia comê-lo

esperando uma mulher surgir da precisão da ossada

um dia somos felizes em nosso jardim cetáceo
e ela caminha suavemente ao meu lado
sonhando o domingo mais triste do mundo no subúrbio do lado de lá

um dia estamos na meia idade e bebemos porque não há opção

e o guindaste no cais  estará esmagado como um inseto morto
diante das mil falhas na goela das águas

o mar está na foto dos homens não no sonho das estátuas


:sua voz  através do mar é o próprio mar em travessia

Chamamento remoto
De mulher equilibrada nos rochedos

é também credível viver fora dos peixes
dentro de um farol no extremo das docas

e nos encontramos agora
mais por memória das marés que por limite do acaso

:o mar está entre nós e por isso nos une:

a mesma palavra que cabe em minha boca
cabe na dela

:em sua boca cabem todos os oceanos:


lua-lâmina-omoplata
o cão de porcelana desfeito na porcelana da constelação

ou esta água pesada nos coágulos da luz

ali onde da matéria mole do sol
               se forjam estrelas

cheguei a idade que um dia sonhei ter
mas o sonho não resistiu a idade

aqui nesta terra-longe
         antecidade ante tudo o que foi feito
[há lugares que esquecem de se atualizar segundo os mapas]

           os imortais cunharam homens
           para ver um mundo por seus olhos
           mas a vida inteira temos esperado por algo
           no outro lado da vida inteira

das realidades possíveis só percebemos esta
onde todos já vêm com encaixe para alguma máquina
            sistemas são subversíveis –
subvertamos agora os astros que não pertencem a nós 
             [a língua:
              astrolábio de céu da boca]


o desfibrilador é antes uma relíquia verbal
que um aparato do esqueleto
                          o tempo na palavra

tudo que era primeiro moveu-se no verbo
mesmo a bomba cardíaca e seus vasos sanguíneos

é nele que as coisas despertam

e então         a língua-que-não-diz
                         o silêncio
confere a física de cada mundo

o corpo está mais que em volta da espinha
o corpo fabrica um lugar a cada estrela que ganha nome
[o albatroz retém a alba no corpo]
                         mastigar a palavra
                         como se mastiga um coração
                         da válvula às aurículas

cada palavra é um sacrário
                            um desígnio
                             um destino
       
Márcio-André nasceu em 1978, no Rio de Janeiro. Com um trabalho que vai da poesia ao pensamento, passando pela música concreta, a arte digital e a performance, tem sido uma referência internacional da literatura e da poesia experimental. Figura em diversas revistas e festivais pelo mundo, assim como em importantes antologias da nova poesia brasileira, e seus poemas foram traduzidos para oito idiomas. Com Ferreira Gullar, Maria Bethânia, Zeca Baleiro e Edu Lobo, leu poemas para o documentário “Há muitas noites na noite”, de Silvio Tendler. Em 2007, fez um recital solitário nos escombros da cidade fantasma de Pripyat, em Chernobyl, tonando-se o primeiro poeta radioativo do mundo. É editor da Confraria do Vento e curador do evento "Cidade aTravessa: poesia dos lugares". Atualmente vive em Lisboa.

2 comentários:

Munique Duarte disse...

Esse poema refrigerou minha tarde de segunda-feira.
Maravilhoso!

Parreira disse...

Muito ouvi falar de Márcio-André. Só agora descobri que ler é bem melhor.