16 de dez. de 2011

Auto de Natal

Imagem de arquivo do autor.


Por Ricardo Novais

Uma mulher indigente caminhava ansiosa pela rua, ela se chamava Maria. Um homem esfarrapado a acompanhava, ele se chamava José. De repente, no meio de toda a gente, surgiu um menino correndo afobado sob os gritos raivosos de guardas e senhores de barba em seu encalço: “Pega! Pega! Ladrão! Moleque, trombadinha! Bateu minha carteira!". Nisto, um ônibus em alta velocidade descendo a grande avenida não conseguiu frear e atropelou o menino que caiu esmagado no asfalto quente como churrasco-grego em hostil praça pública. Desgraçadamente, a morte foi instantânea. O menino se chamava Jesus. A mãe se aproximou então do pequenino corpo esmagado de seu filho e chorou, copiosamente. O pai clamou aos Céus. Mas não veio voz divina alguma, e nem anjo redentor. Não vieram os reis magos; apenas os guardas da polícia metropolitana ajudaram a velar aquele altar. Os animalzinhos sagrados de presépio também não compareceram envoltos na manjedoura; mas por todos os lados se viam generosos ratos, baratas e outros bichos da mesma laia. A única oração que se cantou e rezou ali foi uma ode desordenada pela chegada do rabecão. Entre tantos olhares estilhaçados, era noite de Natal.

4 comentários:

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Gostei bastante, Ricardo. Abração, Rodrigo.

Sandra ABO Calasans disse...

Maravilha! ...

Chris Herrmann disse...

Grande! Parabéns, Ricardo. Este texto me lembro um haicai "de Natal" que um dia escrevi...

Jesus da favela
tropeça no pisca-pisca
: mil embaixadinhas

Chris Herrmann

Parreira disse...

Conto desaforado. Que vc arda milhões de vezes no inferno, Ricardo! rsrsrsrsrs