5 de nov. de 2011

A primeira vez

Por Mabel Amorim

Ela entrou no quarto devagar, seus olhos curiosos avaliando cada detalhe do lugar. Parou em frente à cama larga, redonda, com lençóis alvos e limpos que exalavam um perfume suave e almofadas grandes e acetinadas, convidativas, que pareciam despudoradamente proclamar o motivo de estarem ali, o que a fez sentir-se ainda mais sem graça.

Ficou ali, estática, apenas a cabeça se movia devagar, o olhar passeando no ambiente, descortinando cada canto, cada objeto, os braços semicruzados, as mãos afagando-se mutuamente num gesto de nervosismo e ansiedade, típicos de quem não sabe exatamente como se comportar diante de uma situação.

Ele fechou a porta atrás de si. Ao vê-la assim, deu um largo sorriso. Não havia sarcasmo nem crítica, apenas compreensão. Não se aproximou dela, pelo contrário, afastou-se em direção ao banheiro, em silêncio. Deixou a porta entreaberta, abriu a torneira e pôs-se a lavar as mãos, lentamente, num tempo muito maior que o necessário, esperando que os gestos cotidianos a deixassem mais à vontade.

Virou a cabeça levemente para olhá-la. Ela agora caminhava vagarosamente pelo quarto, tocando alguns objetos com delicadeza, quase com cautela, como se fosse ser repreendida pelo ato. Ele sorriu mais uma vez. Sabia o quanto esse momento era especial para ela e aguardou pacientemente enquanto durava sua excursão.

Então ela parou em frente a ele, as mãos ainda unidas, o rosto olhando para baixo, calada. Ele pegou aquelas mãos delicadas de pele tão fina e envolveu-as nas suas: estavam frias e um pouco trêmulas. Ela olhou-o nos olhos e ele percebeu o rubor em sua face, a respiração rápida, e um belo par de olhos ligeiramente úmidos que refletiam o conflito de sentimentos que se passava em seu coração.

Ele acariciou seus cabelos ternamente. A mão desceu para o rosto, pescoço e colo, com suavidade. Podia sentir a tensão e o prazer que causava em sua pele, enquanto ela fechava os olhos e estremecia ao seu toque. Ele beijou-a nos lábios, suavemente. Afastou-se um pouco para olhá-la. Ela então abriu os olhos e o desejo que ele viu ali causou-lhe um calor intenso no peito, a formigar-lhe até a garganta. Encorajada pela carícia recebida, ela puxou-o para si, desajeitadamente buscando seus lábios, suas mãos apertando-lhe as costas, quase desequilibrando-o numa tentativa de arrancar-lhe a camisa tão cuidadosamente arrumada dentro da calça de linho.

Por sua vez ele buscava o segredo dos pequenos e redondos botões de pérola atrás da sua blusa de renda, que teimavam em escorregar por entre seus dedos ansiosos e suados, aflitos por esperarem tanto.

Enfim, chegaram ao leito, ainda com suas roupas mais íntimas. Ela reagiu quando ele tentou despi-la do que ainda lhe restava no corpo, como se isso fosse o último vestígio de pudor a resguardar-lhe a castidade. Mas ele insistiu docemente e ela cedeu, não sem sentir o rosto arder em brasa.

Entre carinhos e sussurros, o amor aconteceu. Sem pressa, sem cobranças, sem fantasias. O amor como um encontro de desejos, há muito acalentados desde que eram muito jovens e seus pais proibiram seu namoro por não aprovarem a moça tão simples para os padrões da família de muitas posses.

Ele fora mandado para outra cidade distante com o objetivo de estudar, não mais voltando a vê-la. Lá conhecera outra jovem e, sem a objeção da sua família, com ela casara, tivera filhos e, recentemente, dela enviuvara. Agora, passado quase meio século, ao voltar para sua cidade natal, reencontrara aquela que fora seu amor de outrora, ainda sozinha, com a mesma singela beleza que o encantara um dia, não obstante o tempo implacável lhe tivesse levado pouco a pouco o frescor de seus melhores anos.

Naquela tarde, depois de tantos anos, deitados e abraçados na cama de um motel, selavam enfim o amor que suas almas um dia escolheram, porque muito embora o corpo padeça e sucumba às transformações impostas pelo peso do tempo, a essência do ser permanece e só se realiza na entrega espontânea do que lhe é mais sublime.


Mabel Amorim é alagoana de Maceió, radicada em Campina Grande, Paraíba há vinte anos. Bacharela em Direito pela UEPB, encontrou na literatura uma maneira ímpar de exercitar os sentidos. Ler sempre foi uma paixão da alma. Escrever tornou-se uma necessidade irresistível. Participou de antologias e concursos literários. Publicou o romance A última chance em 2008, pela Editora Scortecci, lançando-o na XX Bienal do livro de São Paulo. Em 2011 publicou Os segredos do sótão pela Meta Editora, para o público infantil, com o qual participou da II Feira Literária de Boqueirão-PB, VI FLIPOÇOS – Feira Literária de Poços de Caldas-MG e da VII Bienal do livro de Pernambuco e estará na V Bienal do livro de Alagoas. Mantém uma coluna no site http://paraibaonline.com.br/ e o blog http://www.cafecomresenhas.blogspot.com/

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