20 de nov. de 2011

Novo Especial Poesia n'O BULE - Dia 3

No ar, mais uma edição do Especial de Poesia d’O BULE. Convidamos os leitores e seguidores do site a mergulharem nesse magma de poemas e se deixarem envolver pela magia das palavras. Os poetas e as poetas aqui reunidos representam bem a produção de poesia contemporânea, cuja marca maior é a heterogeneidade de estilos, de vozes. Como disse Octávio Paz, em Os filhos do barro, “O moderno não é caracterizado unicamente por sua novidade, mas por sua heterogeneidade”. Sem dúvida, cada poema postado aqui exige do leitor ou da leitora uma viagem única pelos desvãos da linguagem poética, “... linguagem carregada de significados”, como a definiria Ezra Pound. É com esse espírito que convidamos a todos e a todas a apreciarem a poesia de Claudio Willer (São Paulo), Nydia Bonetti (São Paulo), Paulo Kauim (Brasília), Claudio Daniel (São Paulo), Cristina Bastos (Minas Gerais/Brasília), Munique Duarte (Minas Gerais), Sylvia Beirute (Portugal), Márcio-André (Rio de Janeiro/Portugal), Abreu Paxe (Angola) e Lau Siqueira (Rio Grande do Sul/Paraíba). Para melhor fruição da leitura dos textos de cada autor e de cada autora, dividimos esta edição em três postagens: Especial de Poesia – Parte I (dia 18/11), Especial de Poesia – Parte II (dia 19/11) e Especial de Poesia – Parte III (dia 20/11).


Por Sylvia Beirute


Oração de gratidão

há toda uma gratidão em aceitar o universo.

todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.

há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.

o meu mundo tem ligação directa aos deuses.

há uma força da natureza que age na raiz das constelações.

há um erro que me pensa a fim de me construir.

há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.

e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.

há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.

o meu dia é a minha caneta, o meu papel.

e no final do dia o universo requer um pensamento

que absorve palavras absolutamente inteligentes

e que o resumem na noite brilhante.

esse pensamento é a devolução do dia em forma

de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte,

um novo passo, um novo começo.

há uma renovação constante em mim

na maneira de me dar e de me devolver.


Segredo

o segredo é um hábito que me contém.
o que me influencia hoje é o que me vai chegando.
todo os pequenos elementos.
a minha infância continua a chegar.
definitivamente a minha infância
ainda sobe à minha respiração. e fica.
a respiração parece querer alcançar
qualquer lugar.
o isolamento é infinitivo em qualquer lugar.
mas para tal é preciso estômago e instintos.
o meu instinto é de homo sapiens.
pede renúncia ao sonho. e o sonho influencia
contrariamente.
o segredo é um hábito que me contém.
sou feliz sendo pequena. um metro e sessenta,
olhos tenros como o nome que vejo
a desfazer-se em mim.


Corpos não identificados

amam-se os nossos corpos mortos.

amam-se num amor subterrâneo: os nossos corpos mortos.

amam-se os nossos corpos mortos num muro transparente

por onde vejo ainda: os nossos corpos mortos.

amam-se na ressonância do amanhecer que desperta

leve e docemente sobre a vitamina F que os seus cabelos
conservam: os nossos corpos mortos.

amam-se na respiração limpa dando caminho a uma

contemplação de cristais, a uma porta que ora:
os nossos corpos mortos.

amam-se no sonambulismo do primeiro acto, próximo

de uma prova contrária à sede que a nuvem rejeita:

os nossos corpos mortos.

amam-se numa súbita vontade que crucificou

a metamorfose do dia de hoje: os nossos corpos mortos.

amam a emulação palpável dos presentes na
cerimónia fúnebre: os nossos corpos mortos.

porque só depois do amor, descansa a morte.


Sylvia Beirute (Porto, 1984) é uma poetisa portuguesa. Escreveu o livro de poesia “Uma Prática para Desconserto” (4Águas, 2011). É a autora do blogue de literatura “Uma Casa em Beirute”: www.sylviabeirute.blogspot.com.

***

Projecto poético Nkalu a maza

Por Abreu Paxe

1. Muna ulunga da brevíssima existência

sinto em mim oposto ao medo

- lá para dentro minha pedra (brevíssima existência) -,

o viver silenciado

como se desta vez a existência

abrisse a alma que o guia muna ulunga

a calma mas próxima função

conduz-me anunciando a sedução

a noite ganha razão

como ferida a glória no duro labirinto

muito perto do sofrer

morre em mim oposto a amargura

a doçura da vida espumas de luz lá para diante:

o fracasso, a desonra. que importa a vitória

talvez sobre os dias porque alguém me esmaga a cidade

pó só pó sobre os ombros da morte o vazio

efectivamente intervalo de noites a brevíssima,

inacreditável existência (a pedra) já nada seduz


2. De tanta força brava

a seda de seus lábios jardins de tanto silêncio

nos dias de hoje chega ao sol

o mar de músculos rijos detalhes

ondeada a enxada abria meus olhos em pastos menores

às quatro da tarde meu quarto só dizia

a certo tempo um beijo meus cinco anos

vez ou outra meus olhos ainda descem o morro em força brava

3. Nkalu a maza[1][1]

interrogando um exército sou a fuga

viva experiência típica acidental idade do deserto

outros pontos fugidios o afecto traduzia-se aí a unidade das imagens ao seu lado arredondados nova falta no afecto da indecisão a tarde avoluma-se a construção

ocorre palavras após palavra sobra palavras

sinal exacto nkalu a maza fertilidade de esperas



4. Kintwadi[1][2]

tocar o céu tambor de vertigens o peito kintwadi . nem sequer sonho esta criança rasgada túnica

lambe os braços cheios de corpos profundamente idênticos em sandálias o que canto é só lavrada margem sobre a pele é um mal desatar o nó salvo regressa agora do sono mais branca pena quem a fere ou o vento raparigas tua amada noite em margens altas a memória abandonada casa seios: és palácio: estendidos já os vejo onda recuada em tudo

exaltam posto sol salga o canto pesada pena em redor perfume real pele derramada ao meu lado.

5. Talvez dobrado azul

não é verdade talvez me esqueça velhíssimo do cansaço

debaixo do pé um sinal revés o cimo a boca

só a boca a alcançar a porta morta nas luzes tristes destes lábios

6. Em sexo livre a língua

entre as trevas e a seiva da sintaxe abundam palavras

inofensivas nada dizem à pátria por imitação os impérios

renovam os aspectos os tempos os modos

outro soldado emergia

unia a habitação a fonética e a fonologia ao sol de casa

pirâmides e intervalos o corpo cego texto

regenera cidades por visitar falida interacção

as meninas árvores nocturnas com portas e janelas polares

tudo treme sobre o papel a mesma travessia dispersa tudo


Abreu Castelo Vieira dos Paxe nasceu em 1969 no Vale do Loge, município do Bembe (Uíge, Angola). É Mestre em Ensino de Literaturas em Língua Portuguesa, no Instituto Superior de Ciências da Educação, ISCED de Luanda da Universidade Agostinho Neto (UAN). Licenciou-se, na especialidade de Língua Portuguesa na mesma instituição, onde é docente, de Literatura Angolana, Introdução aos Estudos Literários e Teoria da Literatura. É Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), na qual é Secretário para as Relações Exteriores. È técnico de comércio externo pela escola de comércio. Publicou os seguintes livros de poesia “A Chave no Repouso da Porta” (INALD, 2003) que venceu o Prémio Literário António Jacinto e “O Vento Fede de Luz” (UEA, 2007). No Brasil, colabora e foi publicado nas Revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR), Comunitá Italiana (RJ), nas Revistas Electrónicas Zunai e Cronopios (SP), na Antologia Ovi-Sungo, 13 poetas de Angola, Org. pelo Cláudio Daniel (SP),” Lumme, 2007” e na Revista Literária Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG). Em Portugal na Antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão, 2006). E-mail: abreupaxe@gmail.com

***

Por Lau Siqueira


bizarro

manifesto-me

contra o que pareça

irremediavelmente

triste

manifesto-me

contra as navalhas

do absoluto

vômito desse olhar

lapidado em sentidos

impuros

e acaricio o silêncio

aos murros


condição perene

nas cheias

o rio comanda o espetáculo

e as margens são apenas

degraus para o leito mais fundo

nas secas

o rio é margem


filosofree

dialogar

com o vento

mesmo sem ar

eu tento


grafite

morrer é quase

um imprevisto

morro sempre

quando penso

que não existo


razão nenhuma

o que escrevo

é apenas parte

do que sinto

a outra parte

finjo que minto

e acredito


Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside em João Pessoa-PB. Publicou cinco livros de poemas e mantém o blog www.poesia-sim-poesia.blogspot.com

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