25 de nov. de 2011

'Luz vermelha que se azula', de Nilto Maciel - Primeira parte [1]

Contos ACOLHIDOS, LEMBRADOS E ENGENDRADOS

Este conjunto de contos está dividido em três partes, como se fossem três livros. Brincadeira de quem vive no ócio. Porque um volume de contos ou de poemas é apenas, quase sempre, uma reunião de contos ou poemas. A sequência dada a eles não tem importância. Pode-se ler de trás para frente ou como se queira. Tenho um objetivo didático, no entanto. Como o de dizer ao leitor que neste tomo há três ou quatro tipos de narrativa.

A primeira parte é constituída dos chamados “contos acolhidos”, ditados pelo inconsciente. Contos de inspiração. Saídos de algum álbum secreto de fotografia. Não seriam meus, mas da humanidade: o inconsciente coletivo. Só tive o trabalho de tirar a poeira do caderno, folheá-lo e copiar (em palavras, transformar imagens em palavras) algumas de suas folhas.

A segunda parte resultou de encontro com meu passado, minha infância. Seriam contos de memória, mais ou menos. Vieram também de velhos álbuns de fotografia. Mas não secretos e desconhecidos. São minhas fotos antigas. Semelhantes às de tantas outras pessoas: a calça curta, o sapato novo, o bigode do pai, os olhos da mãe, as árvores da praça.

A terceira é composta de “contos da História”, engendrados com o objetivo de pisar na cara dos heróis/bandidos, de humanizar os homens célebres e de inventar personagens que se aproximam dos mitos.

A maioria das minhas composições literárias surge por acaso, de inopino ou inspiração, o que deve acontecer com quase todos os criadores. Não as busco. Vêm num piscar de olhos. Não as cato nas ruas. Apresentam-se a mim como folhas mortas, papéis velhos, cacos de vidro, esterco. Acolho algumas. Lapido-as, lavo-as e faço delas literatura. Outras, porém, não existem nem como ideia ou, se existem, estão bem enterradas ou perdidas nas páginas de velhos alfarrábios. É o caso de algumas aqui reunidas. Fui procurá-las nas enciclopédias, nos dicionários, nas biografias, nos compêndios de História. Escrevi-as com o objetivo de apresentar alguns personagens históricos não como seres superiores, extraordinários, mas tão-somente como seres humanos. Sejam aqueles tidos como negativos (Nero, Hitler), sejam os seus opostos (Jesus Cristo, Darwin, Freud, Hitchcock, Gandhi). Ou ainda aqueles que ora são bandidos, ora heróis ou santos (Anchieta, Lampião, Padre Cícero). Todos protagonistas de breves enredos (episódios imaginários). Na sua pequenez de humanos. Na sua fragilidade de seres de um metro e pouco de altura num universo de bilhões de estrelas. Na sua dimensão humana.

Além de narrativas com protagonistas famosos, reais, elaborei também composições com personagens imaginários (embora os reais também sejam fictícios), ao lado de seres reais em papel secundário. Uma brincadeira com a História, portanto. Pelo projeto, tais obras formariam um livro homogêneo. Entretanto, o destino me fez parti-lo ao meio. Parte dele juntei a outras peças para participar de um concurso, de que resultou a coleção Pescoço de girafa na poeira (Bolsa Brasília de Produção Literária, 1998), publicada no ano seguinte. Essas ficções, até então inéditas, intitulam-se “Um sonho cartesiano”; “A ideia de matar Pilatos”; “A divisão do mundo”; “Desastre sobre o labirinto de Creta”; “As infinitas pernas de Wellington”; “Um coveiro monstruoso”; “A fome de Malthus”; “Bicho amarrado para morrer”; “Bicho asqueroso”; “Conselho de Luís XVIII”; “Espumas e estrelas”; “Belo céu, vero céu”; “Por culpa de Anouilh”; “Lampião à italiana”; “Pintando o sete na Bélgica”; “Rato sonâmbulo”; “Vers sans rimes”; “Concórdia na órbita da Terra”; “Falsificadores e canibais”; e “Uma página de Robbe-Grillet”.

O projeto inicial se constituía das narrativas acima relacionadas e mais as seguintes, incluídas neste volume: “Apenas um episódio”; “Um camarada brasileiro”; “O verdadeiro e único Ingenieros”; “Caro rosto”; “Entre dançarinos”; “O gato preto de Darwin”; “A invisibilidade das pulgas”; “A inexistência do escudo de ouro”; “O canto de Nero”; “Irmãos”; “Maldita galinha sagrada”; “O embusteiro”; “O insidioso inseto vermelho”; “Sapos nojentos”; “O guardião da China”; “A voz do urso faminto”; “A arma divina”; “Louvado seja Alá”; “As mulheres e o fogo”; “Delírios de um jovem judeu”; “Voto de castidade”; “A reduzida cópia de Samael”; e “Urbi et orbi” (este escrito em 2005).

Portanto, estão aqui reunidas obras escritas antes de 1998 (os chamados contos de personagens históricos) e peças elaboradas depois da publicação de A leste da morte, ou seja, desde o início de 2006.

PRIMEIRA PARTE

OS OUTROS [1]
Por Nilto Maciel


Quando Severino me apareceu pela primeira vez, nem me assustei, porque o vi de relance e queria voltar logo à sala, cioso de rever a chegada do primeiro homem à Lua. Há tempos me imagino astronauta, a saltitar no solo seco do satélite. Chovia muito, a luz dos postes bruxuleava na rua, os pneus dos carros jogavam água nas calçadas. Fui ao banheiro correndo, apenas para cuspir na pia e bochechar. Assim, nem acendi a luz. Além disso, a claridade da sala me permitia ver bem a pia e o espelho. Enquanto esfregava as mãos e cuspia, olhei para o retângulo de vidro e vi o bigode em branco e preto, leve traço de preocupação ao redor da boca e nos olhos. Muito parecido comigo, é verdade. Porém, apresentava uns traços de outro. Voltei à sala e não mais pensei nele, pelo menos durante uma hora.

Naquela noite e nos dias seguintes não falei disso a ninguém, muito menos a Sibila. O nome do desconhecido surgiu por acaso. Precisava de um nome. Qualquer um. E o primeiro (ou talvez o mais apropriado àquele rosto) a ancorar em meu porto – como barco perdido – se anunciou com letras redondas: Severino.

Para evitar discussões domésticas, passei a trancar a porta do banheiro, quando ia me ver. Sibila me vigiava e fazia perguntas: Por que tanto você se olha, Rafael? Está ficando vaidoso, depois de velho? Com a porta fechada, poderia passar alguns minutos a observar Severino, analisá-lo e até conversar, sem ser interrompido por Sibila. Mas não adiantou nada a minha precaução: ela continuou a me importunar. Está virando Narciso?

O segundo a aparecer se chama Mariano. Também usa bigode, como eu, mas em seu olhar há uma profundidade abissal. Não podia mais esconder de Sibila a novidade. Ela me chamou de doido. Parasse de beber. Aquilo era alucinação. Arrependi-me de lhe ter contado tudo. Ela não acreditou em mim.

Severino se mostrou mais algumas vezes, mesmo depois de Mariano e outros. Depois sumiu para sempre. Ou até agora. Da segunda vez, também na moldura do espelho do banheiro, demonstrou vontade de me revelar um segredo. Não posso assegurar ter ouvido sua voz. Seria mentira. O bigode parecia mais branco do que preto, porém as rugas mais se acentuavam. Figurou-se um homem sofrido, desiludido. Falei-lhe (juro ter falado, e isso mais irritou Sibila, que riu, gargalhou e prometeu me levar à força a um hospital para doentes mentais) de meus problemas pessoais, domésticos e de relacionamento com Sibila.

Bernardo surgiu numa noite de muito calor. Passei alguns minutos a conversar com ele. Ainda não realizara a maioria dos sonhos, porém não desistia deles. Pensava em viajar à Europa, passar uns tempos longe daqui. Plano para um futuro próximo, coisa de um a dois anos. Precisava juntar mais dinheiro, parar de gastar com futilidades.

Muito me estranha em tudo isso é as pessoas só me aparecerem no espelho do banheiro. No do quarto não se apresentou ninguém. Para tirar dúvidas, comprei um espelhinho de bolso. Talvez eles quisessem se expor a qualquer momento, em qualquer lugar. Vez por outra, eu metia a mão no bolso, procurava saber se não estavam a me espionar os curiosos, fazia careta, mostrava os dentes, a querer enganá-los. Como se estivesse preocupado com limpeza. Certa feita, uma colega de trabalho cochichava aos ouvidos de outra. Riam. Tive ímpetos de lançar sobre elas o espelho ou o grampeador.

Nos últimos tempos, minha vida tem sido um martírio. Os antigos amigos se afastaram. As mulheres se aproximam, vão ao meu apartamento, dormem comigo (Sibila desistiu de mim), mas logo se afastam, ao me virem diante do espelho do banheiro, em conversas prolongadas comigo mesmo.

Ontem tudo piorou de vez: antes de me deitar, quebrei o espelho, espatifei-o todo. Fui dormir. Os cacos ainda estão no chão. Só assim poderei me livrar desses desconhecidos que me atormentam dia e noite. Mas uma força estranha me puxa para o chão, me força a juntar os fragmentos do espelho. Eles, Severino, Mariano, Bernardo e outros, parecem pedir socorro, como se quisessem voltar à vida, ao convívio comigo. Porém, não tenho força para remover do piso do banheiro os restos deles. Talvez me falte vontade.

[1] Este é o primeiro conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel. Próximo texto do autor, dia 25/12/2011 (sim, no Natal). Não perca! Não se arrependerá por aguardar!

5 comentários:

Kyanja Lee disse...

Muito bom o seu conto, Nilton! Tenho fascínio por narrativas que envolvam espelhos..rs...Estou curiosíssima pela continuidade...

Abs. e sucesso!

Parreira disse...

Grande Nilto!

Bom te ver por aqui!

Marcia Barbieri disse...

Maravilhoso os contos desse livro, já tive o prazer de lê-los.

um grande beijo

Paulo Laurindo disse...

Gostei, seu Nilto. O senhor mantém com as palavras uma relação mágica e afetuosa.

Anônimo disse...

Olá, amigos do Bule. Muito obrigado por este começo. Só um pedido: consertem meu nome para Nilto. Muitos me chamam de Nilton, mas meu pai preferiu aportuguesar o Newton original sem o "n" final.