30 de nov. de 2011

Cenas da vida urbana

Por Cláudio Willer

1

A mulher que mastiga pedaços de vidro estende a mão verde na minha direção. Tudo tem endereço certo e data marcada, até mesmo a queda da última barreira de açúcar travando o olhar, até mesmo a tempestade que irá apagar o rastro do último homem das cavernas.

A mulher de cabelos compridos de prata elétrica estende sua mão violácea na minha direção. Cada canto do quartzo canta uma tonalidade de harpa ferida; as pedras sob o colchão amarelecem aos poucos e deslizam com solenidade para o canto do quarto; os momentos assumem sua estrutura fixa, os dentes não conseguem mais conter a saliva.

A mulher das tatuagens balinesas estende a mão negra na minha direção – já não há saída, do centro da massa vegetal sai um uivo, o calor é pressentido no meio da cortina que acompanha todos os meus movimentos.

A mulher das mãos verdes mastigando pedaços de vidro, a mulher dona das harpas, a mulher das antenas de radar, dispõe-se em círculos. Uma aurora boreal afugenta os pigmeus.

A mulher dos cílios de pedra estende a mão na minha direção. A partir de uma data certa do próximo ano, todas as janelas se abrirão no mesmo instante, e nenhum passo mais poderá ser pressentido

2

Estás, jazes reclinada contra as estalactites da memória, os helicópteros do entardecer vão entrando pelo teu sexo, eles transportam deuses transparentes e tudo é vibração no momento em que nós preparamos para a definitiva queda e nos investimos de guarda-chuvas de cristal, anéis de bronze, bicicletas, e tudo o mais que for necessário para uma tumultuada temporada entre caramanchões de cílios vibratórios, rodovias fálicas, despenhadeiros luminosos, secreções, palavras côncavas, pára-quedas sonolentos, e demais anteparos e instrumentos de um ritual fumegante.

3

Tua ausência é um líquido azulado que escorre pelas cavernas da imaginação. Um povo de gigantes sustenta os pólos da memória, o cogumelo das nuvens prepara-se para a auto-devoração, sístoles e diástoles ressoam pelos labirintos da vida. Catedrais começam a rolar pela encosta, e a cegueira dos pulmões não leva a nada. Sem memória nos emaranhamos em fios de decadência.

Uma sinfonia sutil, soando a partir do meu pé esquerdo, leva-me à levitação. Nomear teu nome é romper o equilíbrio da balança: miríades de horticultores, enlouquecidos, passariam a dedicar-se à predação.

A consagração era prevista: chegará a hora das colisões. Meu infinito pessoal recolhe as imagens da mão do cadáver; pouca coisa nos resta: alguns espiões, um retângulo, a hesitação sem fronteiras. É preciso sair, o quanto antes, das campânulas que circundam o abismo.

4

E subitamente a realidade tornou-se outra, mergulhou em um universo de transparência e submersão onde o mistério se apresentava sob formas metálicas. Não reconhecia mais seus membros, agora ventosas apagando o instante. Cada lâmpada projetava sucessivas sombras em forma de vampiro, de anjo negro, de inseto, de andrógino, feixe de evidências fielmente fixas a seus pés. Sempre soubera ser necessário aprofundar-se na obra de obscuros poetas chineses obcecados pela condição de videntes, e sabia que as formas do cotidiano deviam ser observadas como um certo viés, até se desdobrarem em suas inúmeras possibilidades de ameaça, de espanto, de encantamento.

5

um cilindro, uma árvore, um grão cinzento
podem significar a mesma coisa
para quem passeia pelo ar saturado de vibrações
quando nenhum sino consegue soltar o mesmo gemido
e três pássaros cegos
vêem despertar-se sua memória de folha à margem do despenhadeiro

a grande cidade se retrai mais uma vez
o rastro de alguns momentos
ainda a mantém suspensa no espaço
seu rosto reflete as transformações seguidas
que tremem no interior do granito
enquanto as rodovias de âmbar-gris
mantém sua fatal concisão

este rio de hortênsias chamado meu peito
aos poucos invade os desvãos possíveis
caminhos secretos cruzam-se mais uma vez
uma mensagem cifrada é transportada
como um despojo fumegante
cadáveres brincam de roda em um jardim público
e o escafandrista estremece ao colher a última flor de cacto


Cláudio Willer (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor, ligado à criação literária mais rebelde e transgressiva, ao surrealismo e geração beat. Publicações recentes, Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia, ensaio; Geração Beat; Estranhas Experiências, poesia. Traduziu Lautréamont, Ginsberg e Artaud. Publicado em antologias e periódicos no Brasil e outros países. Doutor em Letras na USP, onde deu cursos sobre surrealismo e geração beat.

Um comentário:

Parreira disse...

O mestre Willer. Nada mais.